terça-feira, 17 de abril de 2012

Lúcida Lucila



                                                                        (Dedicado a minha avó paterna)

Minha loucura foi herdada
Veio caminhando desde minha avó
Que me ensinou a correr na chuva
E tomar café num gole só

Plantava flores em todos cantos
Pintava céus de rosa shock
Palhaços de pés gigantes, que nem
cabiam nos circos de suas telas imagináveis.

Amarrava macaco na cerca da vizinha
E a pobrezinha nem tinha direito a reclamar
Destroncava pescoço de galinhas
E me embalava em suas redes no quintal

E eu lá pequenininha assistia tudo e achava graça
Seu jeito lúdico de ver a vida
Achava aquela mulher tão destemida
E adorava com ela, roubar flores na praça

Por vingança soltava os pássaros,
que meu avô colecionava
Era sua maldade escondida,
Distribuia cafés a quem tinha perdido,
Os grandes os sabores da vida

Nunca a vi triste ou desamparada
Era brava com que merecia e sabia impor
Aquilo que não gostava

Insensata seria eu ,se não tivesse abraçado essa herança
Teria passado pela vida,sem ter as certezas
 
De que aqui só se vive bem,quem alimenta a própria criança ...

Adriane Lima

( Imagem : Jean Claude Desplanques )


sábado, 14 de abril de 2012

Feitio de menina...



Onde estão as sementes
jogadas no jardim?
onde está a menina
cheirando a jasmim?
onde está a donzela
que pensou no amor
como tábua de salvação?

Onde está a canção
de rock’n roll
que Bob Dylan
cantava para mim
por horas sem fim
no volume máximo
entre as paredes azuis do quarto?

Só agora percebi
que prenderam a alegria
e ainda levaram a chave ...
alguém sabe quem a levou?

Tenho a plena
certeza de ter fechado o cadeado
E depois tê-la amarrado
bem na ponta da lua crescente.
assim,não poderia esquecê-la
mas algum vilão
roubou-me a caixa dos sonhos

E assim se foram os momentos risonhos
onde acariciei utopias
mergulhei na fantasia
juntei sonho com realidade
e agora ,sem essa alegria
que está presa na caixa lacrada
que era banhada de alvoradas
e de entardeceres lilases..
oomo vou construir a poesia?

Se lá ficaram todos os sonhos sonhados
os mistérios decifrados
de que hoje não me recordo mais?
quem souber do seu destino
por favor,me comunique
porque nem eu mais acredito
nos véus de possibilidades

Ainda sei que o amor
traz felicidade
que estrelas furtacor
levam a maldade
o peso de um olhar
um segredo guardado
o som do silêncio é bom
o beijo que não foi dado
o escrito hoje apagado
os rabiscos de giz de cera
os minutos de bobeira
o vela soprada na claridade

Foram todas as verdades
que alguém me roubou...
fingindo ser meu amigo
me deu abrigo e me contou,histórias de amor...

E toda esse brincadeira de escrever como quem rima é apenas
meu lado menina, que acredita em poesia vinda da ponta dos dedos
e se distrai com sonhos e segredos como quem costura desenho em nuvens...



Adriane Lima




( Imagem : Stanislavas Sugintas )




sexta-feira, 13 de abril de 2012

Céu de Abril




Passei a vida inteira tentando interpretar
porque não gosto de vermelho


desperdício de tempo querer explicar

o vermelho me rodeou
ao acordar em céu de Abril
onde as folhas de outono
começavam avermelhar
minha oração começava falhar
então comecei a enxergar


emoções avermelham olhos
avermelham a pele
vermelha é a febre


o vermelho do sinal fechado
do sangue jorrado em ferida aberta


a língua, os arranhões
a pimenta malagueta
o desejo de cortar tendões


a cereja do martíni
a bandeira do Japão
o frágil coração


o peixe no aquário
meu imaginário
amor de rubro ardor


a carne mal passada
que sangrou no prato


lá fora o sol ficou avermelhado
restos de um passado
que foi negado
afogado no mar da impossibilidade


- tudo me avermelhou








 



Adriane Lima







Arte by Luigi Spano
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