quarta-feira, 20 de junho de 2012

Poema para minha dupla persona



Sou o sonho do teu lado mais escuro
e o temor do teu lado mais seguro
sou o inocente do teu lado mais culpado
e o pecado do teu lado mais ardente
sou o empregado de teu lado colonizado
e o vagabundo do teu lado mais profundo
sou o paraíso do teu lado mais serpente
e o soldado do teu lado mais malvado
sou o profano do teu lado mais secreto
e o santo de teu lado mais mundano
sou primavera do teu lado mais florido
e a folha velha de teu lado mais outono
sou viajante do teu lado bandoleiro
e o teu porto de teu lado mais caseiro
sou o que busca o teu lado que assusta
e a proteção do teu lado que bambeia
sou o que vestes o teu lado mais despido
e a nudez de teu olhar mais descansado
sou o silêncio do teu lado onde há grito
e a voz que desafina o teu lado de menina
sou o homem sério que desvenda o teu mistério
e o lado negro que assola teu branco espírito
sou o de sempre o de agora e o infinito
o que mente, que inventa, que ignora
que te faz brindes e te serve de memória

sou o que verdadeiramente conhece tua história
e sem segredos abre a caixa de Pandora...

 
 
 
 
 
Adriane  Lima
 
 
Arte by Gerard Daran 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pétalas que viraram estrelas





A mulher andava agora
se despindo em verdades
desvendando mistérios
protegendo-se das maldades


era preciso deixar-se partir
e celebrar despedidas em seu destino
por para fora os desatinos
feitos talvez de enganos


como margaridas em suas mãos
arrancando pétalas, uma a uma
assim fazer com as dores


os amores, arrancando-os com delicadeza
para o sentimento eternizar
e deles surgirem estrelas


o perfume angelical permanecerá
intacto em suas lembranças
é certo que não é fácil evitar:


um homem que tem olhos de criança

 





Adriane Lima









 


Arte by Marie Alyne Thomas

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Poema para ( a) cordar o tempo



Não é fácil sentir-se leve
o peso dos pés estagnados
no cotidiano
não é prêmio algum
é prisão celeste

Voos surreais
pousados em parabólicas
avistadas ao longe

Calmaria de um silêncio
enlouquecedor
que me afina a visão
e me enche de metáforas
e medos

Desejo que as horas
tenham asas de cera
e se derretam com
delicadeza e poesia

o gosto do café
já perdeu o sabor
é tudo tão
soluvelmente cotidiano
que me dissolvo
entre coisas
inanimadas

cores buscam novas nuances
e, não é fácil
acreditar em sonhos
que durem mais que um espaço
entre meu desejo e meu retrato

é tudo estático
perdi tantos pedaços
ao longo de um caminho

busco o brilho de um verniz grudento
que cole minhas verdades
e dê forma concreta
a minha pulsão de vida
que adormece há tempos
na mais alta abstração

Adriane  Lima
 
Imagem: Mark Spain 
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