quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Clamor

 
 
 
Desde a infância
visitamos as fábulas
para sonhar
os aforismos
para pensar
os contos
para recontar
as palavras
para simbolizar
as certezas
para duvidar
o apaixonado diz amor
o soldado diz paz
o jardineiro diz flor
a moça diz rapaz
o algoz diz dor
o doente diz saúde
o condenado diz liberdade
o velho diz juventude
o viajante diz saudade
o sonhador diz vitória
o bondoso diz caridade
o triste diz história
mas todos sabem
nesta réstia de momentos
que a vida é transitória
entre sorrisos e lamentos
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
Arte by Jolanda Richter 
 

No sombrio átrio

 
 
 
Como escolher o branco que alvejo
em detrimento a fome que postergo
como escolher a paz que fraquejo
em detrimento a dor que surge
como escolher o preto que escrevo
em detrimento a voz que calo
como escolher o luto que vocifera
em detrimento ao asco transeunte
 
o incenso dos absolvidos
paira no ar entre os salmos
que desaprendi rezar
 
creio no destino implacável
dos que já nasceram mortos
 
 
 
 
Adriane Lima  
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by Lucia Coghetto 

Requiém da madrugada



De noite o galho arrancou

com intenso cuidado

em terra plantou


sugou orvalho, madrugou

tempo árido visitou

o galho, esquecido ficou


é da natureza da flor insistir

broto tímido pariu

aos olhos do incrédulo plantador


De quem nasceu o arrependimento ?

criador ou criatura


na insistência do intento:

o mistério da vida é o espanto

a lucidez é o inferno


Adriane Lima



Arte by  Tollen H
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