terça-feira, 4 de novembro de 2014

Céu de poeta




Meu riso naquele dia
era pura estripulia
sensibilidade de menina
ecoando em cada livro
doados pelas mãos da poesia
Meu espanto escondido
entre tantas tristezas sem sentido
escoando pelas vielas do morro
Meu caminhar puro desconcerto
habitando em cada casa do lugar
Hoje já não cantaria
-"o morro não tem vez"
quem ali sobe e vê o Redentor
de braços abertos
ao humano calor de sua gente
sente em cada menino
como um sonho de escritor
que quer cuidar do mundo ao redor
guardar a dor que lhe dói
enquanto olha o céu azul
longe dos olhos de
sua própria imagem de chão
exaltada nos muros coloridos
que retratam a alegria
deste mundo de sonhos
de homens, meninos e de poetas
que sempre continuarão acontecendo ...






Adriane Lima







*Morro Santa Marta / outubro 2014 *

domingo, 2 de novembro de 2014

Melodia íntima





Tropeço no que não ouso
pensava ela a despeito de tudo
esquecera seus sonhos
esse cantar de fêmea
efêmero desejo
envelhecido e aprisionado


um blues atravessado
um amor desritmado
na travessia no abismo
que sobre ela pesava


a imagem extirpada
o dilema do absurdo
dizia ela: tudo me resgata
e tudo me apavora


risquei do itinerário
o sopro das verdades
sulcado no tango d'alma


resta hoje, apenas o instante
o fragmento inusitado
da hora vital embora morta


apenas a voz
tem desejo de infinito ao
escapar do mais profundo grito
que ficou lá atrás
no coração dos amadores


sim, dizia ela :
eu sempre quis
dar voz e melodia
aos meus sonhos sufocados


e quem ousaria cantar
sem ser escutado ?


é sempre a mim que recorro
ao meu canto triste e rouco
destes tempos derramados

 







Adriane Lima








Arte by Alessia Ianetti 



Ao princípio do Ver(bo)




Eu entendo nossas vidas
entre signos e significados
esperanças perdidas
horas alinhavadas
entre idas e vindas
o instante do encontro
a dimensão do olhar
o suspiro da presença
o desejo e o desejar
nunca o hábito
de selar espantos
sempre a placidez
de esperar sorrisos
nunca a recusa
dos próprios perigos
sempre sentimentos divididos
entre a soma dos pretextos
e nossos líricos contextos

 





Adriane Lima






Arte by Johanne Cullen 
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