quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Colado aos olhos



Enquanto escrevo,
a vida se transforma
a madeira arqueja
o homem envelhece

a nesga dobra o passível
os espelhos se desgastam
o trigo amadurece
o algodão floresce
os caprichos se esquecem

alguém entra pela porta
outra sai do peito, já morta
a vida segue seu percurso
nas escolhas ou nas surpresas

o vento mantém o ar em movimento
meus gatos se fecham em proteção
a solidão faz parte da paisagem

enquanto o animal adormece sem medo
vagueio nos cantos da memória
a buscar palavras para compor o que sinto

enquanto escrevo,
mais um dia se vai
transforma-se na imagem do que
desperdicei ou na história
indecifrável, que inventei viver

enquanto escrevo,
o que retalho se acalma dentro
onde toda ausência vira palavra
e ganha vida em minha frente










Adriane Lima





Arte by Alexi Torres




O silêncio que comigo fala


Meu poema nasce
à flor da carne
entre olhos de silício
que embaçam a visão dos dias

meu poema vem dos rios
e dos risos, em tarde desperdiçada
interpelando a paz contida
vazada em silêncios e
intensidade

faço poemas contra o tempo
decifrando meus desertos
brindando as gotas de chuva
ou as estrelas do ocaso

nada corrói o meu poema
nem as traças das palavras rebuscadas
ou a unicidade harmônica o mundo

onde o dizer e não dizer nada
é a força que compõe o mistério
são descompassos internos
nos fios esparsos dos dias 

lavando o pó da alma








Adriane Lima









Arte by A
ykut Aydogdu 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Onde olhos habitam asas



Embriago-me do temporal
do dia de sol, em meu quintal
embriago-me lendo Vinícius,
ou assistindo um filme 

que me faça chorar

Embriago-me ao pensar na ciência,
na evolução do homem e sua fé
quando leio conceitos verdadeiros
e sentimentos sem manipulação

Embriago-me na ternura de meus gatos
e na sordidez humana que vejo
quando ouço mentiras e apelos
com sua psicopatia tão bem estruturada

Embriago-me por todo olhar infantil,
sem maquiagem ou coisa que valha
através de minhas dores ou universais
vindas da miséria ou pura ganância

Embriago-me do mais puro vinho
dos deuses esquecidos,
pela profanação e calúnia desde que,
o mundo é mundo

Embriagando-me e vejo a vida
com olhos de quem usa a espreita
para sobrevoar acima dos abutres








Adriane Lima





Arte by Marina Podgaevskaja
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