terça-feira, 21 de março de 2017

A epiderme cálida



Lateja in memorian o que sinto
a carne de outrora
não satisfaz mais o desejo
o mundo se acostuma
ao que é do homem

Volúpia consumida entre dedos
escorre por todo corpo
indiferente a dor alheia
que sabíamos ser o escape
ou solução ao segredo

Se pudesse encontrar uma palavra
que descrevesse tudo que penso
dessa vaziez de sentimentos

Cárneos, olhos carmim
o cheiro do desconhecido
nos corpos nus amanhecidos
sonhamos ser o que não somos

A carne saída do cotidiano espelho
carne da tua carne
eu não a adentro, ela adentra em mim

Penumbra difusa que atravessamos
projetada no vil entalhe 
que já não importa tanto
o que tínhamos em mãos 
era tão mais significativo

Vocifero o que não pode ser domesticado
a dor, ao que verdadeiramente sentíamos
era gozo de alma, na leveza que aos poucos
habitavam seus olhos ternos 
e foi morte aos atos provisórios de outros

hoje mundos desabam onde
a carne respira mesmo distante
entre ensejos falaciosos e indiferentes




Adriane Lima



Arte by Cristhina Fornarelli


sábado, 18 de março de 2017

Prosa para pessoas sensíveis VIII



Sentada entre nuvens da tarde, o silêncio veio perguntar:
Sabia que o colibri sabe cantar? E o s
ujeito sem tempo não pode escutar. 
O meu espanto imediato falou mais que o barulho do pássaro, a trocar seu compromisso com o mundo. 
Ele detém o poder em cada voo solitário ou não (o canto), enquanto eu percebo suavidade na rapidez do gesto (o voo), tudo que muitos olhares nem sempre alcançam.
Eu queria fazer parte disto, enxergar diariamente o sol nascente e ter mãos de agradecimento.
Me basta ouvir o canto do colibri, ver o pulsar do dia, colher as digitais de um anjo, sentir o vento elevar as folhas.

E você ainda quer que eu entenda o que vi e ouvi nesse dia...?
De certo tudo deve estar sendo o que é !!! 
Sim: CANTA, eu respondi.



















Adriane Lima










Arte by Nik Helbig

sexta-feira, 17 de março de 2017

Essência divina



O que pensar
desse tempo, dessa vida
uns com fome de ser
outros com sede de existir

empresto meu olhar
a tudo que vejo
doar a alma é pouco
diante do que desejo

meu mundo não cabe
nos braços do pensamento
bate asas quer voar
cria um silêncio crepuscular

nesse mar de divindades
eu delicadamente a descansar
já que morrer é tarde








Adriane Lima








Arte by Galya Bukova
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