sábado, 10 de fevereiro de 2018

Espaços em branco



Hoje o silêncio é tudo
na liquidez do dia,
a casa, como companhia

o agora, é tudo que resta
do vazio profundo

os passos trocados
à procura do viés
da vida

os caminhos sem saída
a íntima falta
até então, negada

hoje, o sonho extinto
no peito livre que diz,
desconhecer o amor

as úmidas horas
da chuva que cai
aconchega a ilusão

são tempos voláteis
para quem brincou
de viver, fingindo não conhecer 
os ritos






Adriane Lima






Arte by Fernando Ortega





Silêncio fabricado



Pedi para você despertar
na calada da noite
é de sina, é de sorte
ouvir o murmúrio do ar


são gatos no cio
o vento que sopra
sobre o vazio, da estrela cadente
é o ritmo imponente,
da escuridão

são rastros do infinito
animais de instinto
que velam o sono
e conhecem  todas fragilidades

enquanto o dia nasce
e faz com que a alma
mergulhe sem entender,
quando tudo irá cessar







Adriane Lima




Arte by Alessia Ianetti









Tempo de palavras



Guardei por tempos as palavras
amarrei uma por uma
feito colar de contas
enfeitando minha garganta

palavras ali guardadas
organizando pensamentos
não pousariam em folhas brancas
não abririam feito pétalas

seriam apenas palavras
caladas, úmidas e
equivocadas
entre pensamento e linguagem

na aragem não subiriam
feito bolhas de sabão
não cairiam em mãos erradas

então calei dias e noites 
meus versos
mesmo sabendo
estarem aqui dentro

aguardando minha hora
de jogar com o nada
de suspirar em alívio
por ser eu mesma
meu bumerangue

das palavras que jogo
e voltam
e voltam
em meu silêncio de pretensão









Adriane Lima










Arte by Agnieszka Wencka 

Folhas mortas



O leve ultimatum
do último gole
do último desejo
da última cena
do que poderia ser dito

o pesado ultimatum
do último beijo
do último adeus
da última visão
do que poderia ter sido

aquilo que resta
in memoriam
para o resto
da vida

do verso
do rés

da dor
tão gente
tão cão
que torna

o sentir
o fardo da vida








Adriane Lima





Arte by Xavier Pesme




Mil rotas



O silêncio do dia
faz o poeta ver poesia
até onde não há

Na cabeça mil pensamentos
no peito seus tormentos
que ele deseja gritar

A razão pede socorro
pede para o peito acalmar
e o poeta quer ser ouvido
ver sangrado os sentidos
para o impulso de se soltar

A irreverência do que guarda
se contrai e se expande
e num piscar de olhos
o poeta muda de foco

É de brincar de sí mesmo
que no fundo ele gosta
para se mutilar em tantos
se esconder e se encontrar
no barulho da noite






Adriane Lima







Arte by Cátia Creole
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