sábado, 21 de janeiro de 2017

As dores sabem gritar



Deitei em sua ternura
e um mar se revelou para mim
sopros suaves, gestos silenciosos

atravessamos momentos
de melancolia
sujamos as mãos
em terras estrangeiras

náufragos
cada um se salvou
ao agarrar o solo firme

senti natural se perder
sem precisar explicar
ou sofrer

Deitei em sua ternura
e fomos pulverizados
por mentiras torpes

bastava continuar
se movendo
em direções opostas

e foi o que fiz
cravei os dentes
na borda do copo
ao beber gim
li alguns manuais de
boas maneiras

gritei seu nome
até esquecer a pronúncia
sob uma chuva gelada
numa rua escura

estou de volta
dentro de minha ternura
começando outro caminho
com sobrevivente







Adriane Lima












Arte by Teri Shuster












quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Na crisálida de palavras



Entre meus dias monossilábicos
aparece você
dona de meus acordes
e risos dissonantes

ali um silêncio de nuvem
compõe a paisagem
quando olho para o relógio
e sei que o tempo
é curto para nossos assuntos
a seifar urgências
no calendário dos sonhos

sou toda palavra
a folhear histórias
que estavam guardadas em mim
em você e em todas as ruas do bairro

somos enfim barulho de trem manso
saindo da plataforma
e seguindo os percursos e percalços
da vida que grita por nós









Adriane Lima










Arte by Christian Chapman

Vertigens do tempo



Sinto na alma
a falta de sua carne
a mesma que adentrou a asa
mordeu o poema

e cuspiu letras
sob meu corpo queimado de sol

adestro cada silêncio
murmuro algumas canções
antes de dormir
e sonho

com seus olhos miúdos
pela dor e cansaço
dos dias escuros





Adriane Lima





Arte by Peter Seminck
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