quinta-feira, 28 de maio de 2015

Instantâneo e contundente





Foi só o braço que ele tocou
Senti como se fosse
um vendaval de palavras ditas
dentro de mim, que soaram
em entrelinhas de arrepios

Guardarei essas palavras 

em segredo até o fim ...









Adriane Lima











Arte by  Anick Bouvattier


Prosa para pessoas sensíveis II



- Bom dia,eu gostaria de saber se vocês tem 
livros de poesias...?
Ah, acho que sim, ali embaixo na última fileira daquela estante.
- Só tem Manuel Bandeira ? (pergunto já desanimando).
Sim, infelizmente poesia não vende.
Mas,olha,chegaram aqueles livros para colorir e desestressar !
Eles estão na moda, poesia é bonito moça, só que as pessoas não compram.
A poesia é isso, pensei, como um guarda roupa, ela tem uma porta e quem escreve guarda ali dentro inúmeras peças.
Uma porta de salvação, que ninguém consegue entrar e ficar.
...só abrir e fechar ...






Adriane Lima







Arte by Aaraon Nigel 

De volta ao começo

 

Vertigem, pensei:
memoráveis tardes
infinitos mergulhos
águas que atravessei


num canto de solidão
deitei de cabeça para baixo
criei uma nova visão
para meu mundo


fui vendo as coisas
sem o medo das cobranças
sem o olhar desanimador
tirei o peso dos ombros
e das margens que me oprimiam


de cabeça para baixo
me sustentei
olhei a chuva que caia
transpassando o dia
e me vi também mudando


com o sol, me animava
com a chuva me aninhava
e senti a grandeza das surpresas
vento rasgando sorrateiramente o meu viver


reinventei meu universo
sem verbos, sem verbetes
calcei um salto e com classe
voltei ao chão


pés para cima, pés para baixo
fluxo sanguíneo correndo forte
giros em mim mesma
encantada entendi de ângulos
e cismada percebi
que a vida era nada
diante de meus planos


triste é nunca se perder de amor
nunca mudar através da dor
passageiros da ilusão
ignóbeis são, os que se fixam
em vestígios de uma vida igual 

nunca viraram-se de cabeça para baixo
e não sentiram os pés tocando o céu


Feliz estou, em ser quem sou
agora o Yin e o Yang equilibram-se em mim









Adriane Lima










Arte by  Ed Serecky

Prosa para pessoas sensíveis I




- Fiz esse quadro abstrato, ela me disse.
Apontando para o quadro no corredor do hospital.
É um navio no meio do mar, está vendo?
Fiz ele indo e não sei fazer ele voltar.
E eu pensei : muito mais que um quadro
abstrato, ela fez, uma imagem literária visível só a olhos intensamente poéticos e nus ...






Adriane Lima






Arte by Andrea Chisesi

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fagulhas de uma totalidade





Minha palavra, circula sangue
nesta estrada
não há sinal de vida
antes a morte, que a ferida


viver sem ter liberdade
olhos sem dimensões
vislumbram o caminho da verdade


aonde está a direção
que dá em alguma parte ?
cedros, cidras mediterrânea
o rubro sepulcro de cada um


homens valem menos que diamantes
universo amargo e belicoso
quem fomentou a guerra
acordou a cadela dos dentes ardis
que adormecia na frágua de Gibraltar


fez do avesso seu açoite
arrancou a pele dos sonhos
explorando novas sementes
entre corpos em visagens


o mundo é amargo e portátil
se a ele cabe ter cercas
entre dois continentes


onde poderá o homem
viver com dignidade
sem fazer história
com seu próprio sangue


minha compaixão
desejará plantar flores
enquanto acreditar na filosofia
do existencialismo




Adriane Lima






Arte by  Andrea Chisesi

sábado, 23 de maio de 2015

Solidão escarlate

 
 
Há uma solidão de homem
por amar uma mulher
amante de si mesma
como quem não ama
outro alguém
 
Não ama de amor
não ama de sexo
não há falta de um
nem de outro
 
O homem está ali
a ama-la em seu peito
abrindo a janela da alma
para respirar seus defeitos
 
Chego a entender
esse jeito de homem vadio
em busca de cio
entre outras mulheres
 
deve ser para ver
se essa mulher que tanto ama
um dia se entregará
com o amor
que ele sonha
 
esquecido em alguma fronha
de um quarto qualquer
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Diego Dayer
 

Debruçada no vazio

 
 
O dia estava lá
pronto para ser vivido
feito para que eu entrasse nele
e usasse suas vinte quatro horas
 
e eu o matei, como diriam muitos
que correm freneticamente
eu lentamente sentei
olhei o céu infinitamente Azul
 
o Pássaro a cantar despretensioso
o Jasmim a florir benevolente
meu Gato a fazer companhia
 
eu ali tendo um traçar diário
em um só lugar
feito de solitude
sem a exatidão
dos ponteiros dos relógios
 
O dia pronto abrindo-se as pressas
para um mundo sem sentido
um tempo marcado
a outro, entre fardos
e  virtudes
 
eu ali, despretensiosamente
tropeçando em meus
próprios caminhos 
vivendo o sutil
acaso desse mundo
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
Arte by Fattah Hallah Abdel

Matéria-prima do sonho


Um corpo nu
sobre o outro
é a melhor coberta

um corpo nu
sobre o outro
vibra o mundo

como são lindos
os corpos nus
envoltos ao despudor
ao desejo da pele
amantes do amor

um corpo nu
sobre o outro
formam
líquidos caminhos
que nascem e morrem
na entrega

um corpo nu
sobre o outro
tem a força
coletiva das ondas
com êxtase
final no céu



Adriane Lima




Arte by Ricardo Casal

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Nos movimentos do mundo



Meu corpo é pouco
sonho ser outra
dar novas formas
as paisagens de
minha alma

hoje, sou acúmulo
de nuvens carregadas
nebulosas lembranças
pairam sobre mim

sento-me
para que o mundo
gire em paz
não confio em meus pés
que me fazem voltar atrás

quero ficar assim
em minha perplexidade
criando mudanças
em meus pensamentos

nuvem solta
sobre o mundo
transitória e frágil

já faz muito tempo
que não sei
onde quero chegar



 




Adriane Lima


 



Arte by Logan Zillmer 

Decadência em lá maior




Eu aqui
fui me perdendo de ti
a olhos nus
inebriados de tristezas
fui me perdendo de ti
que foi caindo lá
e virando Lá grimas 









Adriane Lima









Arte by Logan Zillmer

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A pele que me ensinaste

 
 
Tenho que agradecer
por ter me ensinado camuflagens
 
a alegria de não mais me pertencer
e estar assim
tão escondida entre dimensões
 
Tenho que agradecer
por saber viver na pele
tamanhas transformações
 
um eu dentro do que sou
um eu fora do meu lugar comum
 
seguir de ovelha
e matar leões
não fora, mas dentro de mim






Adriane Lima






Arte by Sergey Ignatenko 

Entrei de olhos vendados

 
 
Abri os olhos
e não enxerguei a minha alma
nem a tua
não faltava sol
faltava a verdade
 
Eu havia me tornado portadora
de uma miopia amorosa
sentia o coração doendo de fadiga
sozinha seguindo em frente
deixei a visão escurecer
e um tênue véu nascer
 
Diante de críticos cruéis
corvos, serpentes e chacais
que adentraram os quintais
onde plantei as mais belas flores
 
Aos poucos fui me cegando
não consultei minha razão
e minhas vontades antigas
 
Era mais seguro e confortável
manter meu sorriso de complacência
apagar meus desejos ardentes
para apenas sobreviver dentro da morte
 
Fazer apenas silenciosos diálogos
com todos os Eus que me habitam
estava cercada demais por animais
homens em seus pedestais
de Egos não corrompidos
 
Triste ter deixado me envolver
nessa cegueira da alma
porque no fundo
a escolha é sempre nossa
entre o dialético jogo
de enxergar e não Ver
 
 
 
 
 
 Adriane Lima







Arte by Wlodzimierz Kuklinski

sábado, 16 de maio de 2015

Estranhos no paraíso

 
 
Cria-se
entre instantes
entre esperas
entre amantes
folhas rasgadas
restos de segredos
e alguns medos
caídos ao chão
 
recolhe-se
entre mãos em concha
entre dentes de rastelo
folhas outonais
restos banais
e alguns credos
caídos ao solo
 
empilha-se
entre o tempo
entre os lábios
entre os dedos
entre corpo e alma
 
o mais sutil
o mais leve
tudo o que perenizou
entre tempo, quedas e jardins
 
o narciso outonal
de você
e de mim

 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
Arte by Tânia Wursig
 
 

Poema raso




Entre águas
que molham a alma
inebriada de beijos
da boca até os pés

São paralelos os caminhos
entre olhos e luar
descompassadas estrelas
nascidas em pontas de dedos

Como se desenhadas
abruptamente
nada além da paixão

E sem ser vista
no âmago
jamais permitiria
que navegasse

em  meu coração





Adriane Lima





Arte by Martinho Dias

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Rota e viagem

 
 
Há uma realidade ingênua
em compor um poema
feito criança ao soltar pipa
voar pelo espaço infinito
dar a linha para cruzar
o benquerer do leitor
 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
Arte by Dima Dmitriev

Templo de homens

 
 
Deixe o cabelo crescer
vire roqueiro
deixe a barba crescer
vire profeta
deixe o medo crescer
seja um asceta
deixe o ego crescer
mate o poeta que estava
dentro de todos eles
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Abby Hellen Birghan

Percurso amoroso




Depois de conhecer o amor
até o pulsar mais sutil
teve para ela
a sensação de desgoverno
pena
ele decidiu ser prudente
e dobrou a esquina
para sempre







Adriane Lima







Arte by  Tran Nguyen

Cintilâncias



Há um véu na alma
envolvendo os dias
não sei se é dor
o que penso e sinto


esse roçar delicado
de língua nos dentes
o embaraçoso fato
de não ler pensamentos


para a memória do corpo
o amor tem olhos cegos
e uma paleta imensa
de cores
aprendendo caligrafia




Adriane Lima









Arte by Wlodzimerg Kuklinski

Poema da inconstância

 
 
A leveza está na asa
na alma desarmada
em colher o dia a dia
 
a leveza está na roda da saia
que gira em torno do corpo
seu único sol
 
a leveza está no nascimento de Vênus
dentro da concha
que retém o mundo
 
a leveza está na ilusão lírica
que toda rima
precisa de peso
 



Adriane Lima






Arte by Horacio Molina
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