segunda-feira, 29 de junho de 2015

Indomável asa

 
 
Meu coração anda cansado
de acreditar no amor romantizado
tremer pelo beijo roubado
desvendar os segredos da noite
e guardar-se em seu próprio território
 
meu coração se viu assustado
quando ao seu lado
a lua teve outro brilho
e o céu enfeitado de estrelas
apontava Vênus colada em Júpiter
 
as horas raras de puro instinto
onde o Olimpo nos doava o espanto
e algumas asas translúcidas
 
na esquina do tempo
tua mão à procura da minha
por esses instantes
minha alma não sentiu-se sozinha
mas seria melodia, sem refrão
 
Meu coração feito borboleta
fez pouso leve e mudou a direção
 
 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Irma Gruenholz

Sem pedir nada

 
 
Um velho silêncio
me faz companhia
tudo se perde, bem sei ,
os cenários, os sapatos,
os olhares, as palavras
as chaves, as direções
o rosto que jurei nunca esquecer
o sorriso que afirmei sempre ouvir
tudo se gasta
e eu, tecelã de poesias
tento bordar algumas estradas
endereçadas aos meus verbos
empurradas por uma mão invisível
que teimo não acreditar ser minha
Sinto um deserto em meus olhos
as miragens, já não me iludem mais
Não peço coordenadas para ir em frente
sem animosidade entendo tudo
mudei como a geometria da lua
minguei despida de esperanças 
de abraçar um gesto de amorosidade
talvez alguém pergunte, onde Eu estava
nesse momento mudo
e então responderei :
Não uso palavras para enfeitar o que sinto
quero apenas silenciar-me
nessa substância de ser gente e sentir tudo 
 
 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Willian Rose
 

Limitações humanas

 
 
 
Te quis pássaro
adornado de cores
voando em meu jardim
sem grades
cadeados ou gaiolas
te quis livre
correndo feito leito de rio
sem embocadura
seixos ou quedas
que o contivessem
te quis paisagem
enfeitando tudo
onde eu estivesse
a voar por mim
ao alcance de meus sonhos 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Tania Wursig
 
 
 

Em ritmo de plenitude



O meu caminho

se tornou completo

quando percebi

que não mais desejava

saber onde você andava









Adriane Lima








Arte by Margarida Cêpeda

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sob a essência da esperança




Era uma tarde linda de outono, céu azul sem nuvens, um vento ameno embalando o mês de Maio, seguimos para nossa missão de levarmos um pouco de poesia e afeto a um Lar para idosos, nesse mundo atual onde é tão difícil praticar a solidariedade, quanto mais compreender seus benefícios.
Particularmente, não gosto de pensar de forma racional essa solidão a qual teria que me deparar, apenas pensei na contribuição que estaria dando a eles que vivem tão sozinhos, sabendo que tudo o que fazemos com o coração, é sempre o mais importante.
Eis que para meu espanto ao chegar lá me deparei com guerreiros, que ainda sonham com horizontes abertos e dão asas a imaginação.
Vivem suas solidões e não são solitários, se ajudam, conversam, muito embora, alguns, após AVC mal conseguem produzir inteligivelmente uma frase completa,mesmo assim; sorriem e se olham nos olhos.
A primeira senhora que encontramos, estava sentada em uma poltrona, com uma boneca no colo e conversava como se ela fosse seu elo de ligação com resto do mundo. Como disse Fernando Pessoa : "A alma tem nostalgia das origens". E lá estava ela com sua filha-boneca no colo,  falava e conversava através dela, como se fosse ventríloqua contando histórias para todas nós.
Outro senhor, andava de um lado a outro, perguntando que horas ia poder ir embora, mas ao começarmos as atividades se propôs a ler e quis contar o nome de todos amigos que lá estavam, outro perguntando que horas o filho iria também visita-lo porque estava já pronto para ir ao baile. E outro, o mais novo e animado da turma nos relatou que adorava fugir para ir a forrós nos finais de semana e, que estava ali dentro contra sua vontade e que dava suas "fugidas", mas sempre voltava, porque sabia que não teria como ficar na casa dos filhos, que ali o colocaram.
Relatou suas histórias de juventude, as noites de boemia. Disse ter tido uma vida feliz até chegar aos seus dias trancados na casa de repouso. Não quero aqui contar muito sobre eles e sim, do meu olhar e questionamento sobre o tamanho da solidão de cada um e também meu total espanto com a visão errada que eu tinha desse universo.
Eles tinham a alegria que eu sempre achei essencial para a vida. E olhos para ver tudo que os cercavam. Com o passar do tempo sinto que as pessoas em nossa volta vão ficando invisíveis, vejo diariamente na rua, nos ônibus e em tantos lugares que frequento, rostos sumindo diante a realidade particular de cada um. Logo pela manhã quando saio de casa e entro no ônibus, me deparo com a maioria das pessoas de cabeça baixa em seus celulares e fones de ouvido, não veem a beleza dos ipês florindo nas calçadas, não veem o bebê sorrindo ao passar pela catraca no colo da mãe. Vivem a realidade na frente de uma tela não tão real, perdendo a intensidade de alguns momentos únicos. Esse mundo está ficando invisível porque em nossa pressa estamos nos acostumando com a rotina, como essa máquina que temos nas mãos e acreditamos substituir o olhar .
A grande maioria já não vê o mundo onde estão mergulhados.
E lá nesse local eu pensava : quantas histórias estarão também esquecidas aqui com eles. Como dizia Mário Quintana : Nós vivemos a temer o futuro, mas é o passado que nos atropela.
Essas pessoas ali abrigadas em suas solidões, em seus umbigos de cordões cortados por histórias e origens que todos nós parecemos não ver. Estão mais vivas e livres que muitos que estão aqui fora.
 A vida solitária de tais indivíduos pode ser alegre e isso pude afirmar hoje.
E eu vi em cada olhar de curiosidade uma alegria imensa, em dividir suas histórias conosco, cantar, bater palmas como se pudessem ter naquele dia a alegria infantil de não temer a morte, não recusaram-se à felicidade dessa troca como a maioria dos que estão aqui fora fazem.
Muitos acreditam que são detentores do tempo, que há tempo para tudo e não abrem mão dessa visão solitária e virtual que a grande maioria tem se dedicado em seus IPhones, tablets e smartphones.
E eu que passei uma vida toda acreditando ser a velhice um horror, senti na pele que ser jovem hoje e não viver o essencial é que é um horror. Voltei para casa leve, com meu olhar poético repensando a velhice, o cuidado que eles merecem e o trabalho que pode ser feito com amor em escutar o que eles tem para contar.Velhice é apenas a idade do respeito, talvez por isso muitos jovens não tem o costume de dar o assento nos ônibus porque uma grande maioria, não entende e não vive esse respeito.
Acho que agora entendo porque apesar de me comover com a velhice e relaciona-la com a morte já que, culturalmente cresci ouvindo assim, hoje vejo o quanto muitos idosos estão vivos e capazes de sentir a beleza e toda alegria de viver ,mesmo que seja por um dia, ao estarem em nossa companhia e poderem voltar a ser crianças !!!!
E eu como poeta ao voltar para casa me lembrei de uma frase de uma crônica de Rubem Alves onde ele diz : "Sugiro um nome diferente para essa idade da velhice, que não é ironia, mas poesia: Pessoas portadoras de crepúsculos no olhar...".
Ele tem toda razão, nesse dia teve um por do sol maravilhoso na estrada de volta para casa.






 



 
Adriane Lima





 
Arte by Pierre Monet

terça-feira, 16 de junho de 2015

Em total reinvenção

 


Hoje encarei-me no espelho
como faço todas as manhãs
pedi ao tempo que parasse
de me pregar peças


Olhava cada detalhe
que tecia o fio da pele
cada franzir de testa
era uma velha dúvida
cada entortar de boca
era uma paixão perdida
cada riso amarelado
uma verdade que apostei


Nunca me senti a dona
dos meus dramas
nem por isso estive
às avessas de todas as dores
que me fizeram lembrar
que tenho joelhos e então cair


Muito embora acredite em asas
poucas vezes rezei para um anjo
resgatar-me, em hora tão minha
nunca me neguei envelhecer


Meus dias são únicos
minhas paixões ardentes
alguns impulsos contidos
uns sentimentos perdidos
fiz muitos receios partirem
o que me alegra ainda mais


Hoje com certa categoria
aprendi a diferenciar um
mulherengo de um canalha
para uma mulher
isso é a mais pura sabedoria
nesse universo tão cheio de analogias


Em cada marca que hoje via
imaginava como estaria nova,
minha alma tão dona
de meus desejos
tão leve em suas escolhas
tão liquida pelos seus lutos


Eu olhava em meu olhos
e me via em cada canto
havia um espaço infinito
entre o que sou e o quanto mudei


O quanto procuro
o quanto me perco
o quanto me assusto
bem menos comigo
do que com os demais


Cada manhã no espelho
é uma surpresa e
para minha felicidade
sempre sou eu de novo







Adriane Lima








Arte by Renzo Castañeda

domingo, 14 de junho de 2015

O pulsar de meu destino




Hoje eu senti
um desejo enorme
de criar poeticamente um homem


visceral embora apaixonado
angustiado pela pequenez do mundo
que o consome, em sua indiferença


um homem que ame o amor
e o desejo que advém dele
destemido e frágil diante
da mulher amada


daquele tipo sonhador
que colhe flores
antes de busca-la em casa
que puxa o gatilho
perante o medo
de seu universo intocado


firme e viril nas armadilhas da carne
um homem que vista
o perfume do mistério
e habite no olhar tudo que observa


um homem de natureza febril
pátrio, real e hostil
em sua luta diária


que torne sempre
a ser esse homem
enquanto seus músculos
abraçam e derretem o silêncio


me ensinando algo
que eu não tenha aprendido até aqui






Adriane Lima










Arte by Juan Manuel Cossio


Entre espaços consensuais



Numa guerra sistêmica
entre a paixão e o desejo
em nossos corpos, arde o perfume
e nos propomos o doce embate
no enigmático cair da tarde


eu abro os braços
você neles mergulha
eu roço tua nuca
com a ponta dos dedos
você me vira doando a boca


eu escorrego pelo teu corpo
você me puxa pelos cabelos
eu inauguro nosso lençol
você me cobre de beijos


eu faço estradas pelo seu corpo
você cavalga em meus precipícios
um sistema para abrigar outro sistema


assim, entregamos nossas reservas
com as palavras do silêncio
num leve e traz de corpo e pele


carne e sonho se incendeiam
águas incontroláveis, vão se encontrando
entre o sal, saliva e suor
como quem toca o inesperado
deciframos os códigos sagrados
dessa guerra que não foi feita para ser vencida







Adriane Lima






Arte by Michael O'Neal   

terça-feira, 9 de junho de 2015

Catedral de espelhos

 
 
Alguma coisa em mim
observa atenta
os movimentos do mundo
parado em seu próprio umbigo
 
solitária penso que existo
no coletivo sinto que adormeço
pela essência desdita até aqui
 
não compactuo
com inúmeras coisas que vejo
e me falta coragem para o grito
 
a blasfêmia anda solta
sem as rédeas do tempo
carroça enfeitada
por flores já mortas
 
os falsos profetas
incendeiam o povo
com doces palavras
na boca do forno
 
a emoção
anda solta em minha pele
e liberto o trunfo
de ser poeta na liberdade
entre os dedos
 
escrevo poemas
para não esquecer
em qual inferno tranquei
meus medos 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by Juan Manuel Cossio 
 

O medo dos peixes




Queria pescar o amor
com uma rede miúda
trazê-lo para minha praia
de mulher-sereia desnuda


que entoa uma canção
em noite de lua cheia
guardando o pó das estrelas
entre as mãos das lembranças


queria um lugar
que se parecesse
com o que eu precisava
na minha eterna sede de buscas


fazer o amor respirar acordado
embevecido da misericórdia
daqueles que nutrem a esperança


acontece que acordei muda
fomentando minha independência solitária
e alma inquieta


hoje o amor não passa de um fiapo
e não há rede que o proteja
das tramas da brevidade
que sempre nos escapam em cardumes




Adriane Lima








Arte by  Crhistin Schloe





















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