sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Absolvição





Por amor
guardei segredos
entre segredos
guardei o amor
em qual eternidade
caberá a minha alma
outra possibilidade
de matar um deus em silêncio

 





Adriane Lima





Arte by Tatyana  Ilieva

Entre teu vazante amor e desejo




Queria saber do teu querer
da falta que te faço
da mais injusta aceitação
a mais dura indignação
queria saber do teu querer
se já nasceu um coração
ou o espaço permanece aberto
desmanchando pelo chão
feito gotas de mercúrio

 






Adriane Lima





Arte by  Bretch Linch

Amor e virtude




Meu amor
vive em segredo
teu amor
vive sob segredo
não há preposição
que fale por nós
Além da junção poética

 





Adriane Lima




Arte by Drew Darcy 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Lógica íntima




Meus olhos castos
não são castanhos
seus olhos verdes
me são estranhos
ando reticente
a enxergar com rigor
a vida e os enganos
isso eu só entendo
nos planos das borboletas

 





Adriane Lima







Arte by  Christopher Cuseo

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O abandono das palavras




Não preciso de palavras
para mostrar o que sinto
existem verdades silenciosas
visíveis aos olhos
espalmadas nas mãos desejosas
entre tudo que decidiu ficar
ou na incontrolável vontade
de ver tudo passar
existem verdades silenciosas
nas traições dos verbos
de tempos imperfeitos
para não mais rimar
palavras de sua boca com amar
porque a minha
grande verdade silenciosa
é ser de carne e vento
e em meu caminho
não voltar atrás
vivo da necessidade
do esquecimento
de me deixar passar

 




Adriane Lima









Arte by Steve Hanks 

Estilhaços do desejo


 


Eis que declaro
sem a menor sutileza
não por vingança ou covardia
matei mesmo nosso amor
mas em legítima defesa

 




Adriane Lima






 Arte by Aliza Hazel

Entre lírios e estrelas





Não sou poeta
porque rimo palavras
sou poeta por quê
sou feita de asas
e persigo estrelas
dentro de casa
ao pulsar as letras
em minhas mãos

 





Adriane Lima





Arte by Cat Whipple

Plena e infinita






Feito flor que desabrocha
em manhã ensolarada
cada crisálida
que rompo
sou uma
nova borboleta
o invisível põe cores
em minha alma incrustada

 




Adriane Lima






Arte by Tatyana Ilieva 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ressalva





Era ali
naquele bar
que eu sabia
que iria te reencontrar

matar a sede da saudade
era o único crime
que iria compensar

 





Adriane Lima






Arte by Fabian Perez 

domingo, 16 de novembro de 2014

Dança poética






Acreditei que bastaria
o aperto dos braços
a soltura dos pés
o desejo liberto
a memória trancada
no entanto, precisava mais
para essa gravidade
fazer minha alma
nascer de novo
sob a pele das palavras

 




Adriane Lima





Arte by Hamish Blakely 

Arquivo morto





Hoje meu grande dilema
é ser mulher
não ser poema
de versos fadados
vivos de amor

hoje meu grande pecado
é ser poeta
de versos calados
mortos de dor

 



Adriane Lima






Arte by Ilse  Klein

Flutuantes




A dor não só
nos faz mais fortes
como nos
permite escolhas
aprender a rir com elas
bem acompanhados
ou chorar delas
em solidão

 



Adriane Lima





Arte by Taty Ozanit  

Entre espaços





Tem dias que sou rio
que não busca o mar
para desaguar
tem dias que sou rio
buscando margem
para encostar
só desejo proteção
que me ampare

 





Adriane Lima







Arte by Dorina Costras 

Além de mim






Quando sinto
no pescoço um nó
é como a subida
da maré na areia

é onda que assola
vem vértebra por vértebra
dor que em mim passeia

a gélida sensação
me acompanha
dos pés a cabeça

mas é na garganta
que fica o pó calcificado
visível em minha nítida mudez
feito um coral quebrado

arranha, arrasta
onde a razão
que não entende de mares
vai e vem
com meus pesares



 




Adriane Lima







Arte by  Anna Teresa Fernandez  

Asa viajante






Ando em pele
tão escaldada
que a fria mão
da consciência
tem me servido
como aliada

 





Adriane Lima






Arte by Yohey Horishita 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Meu reino





O meu mais insuspeito trono
é a poesia, onde sento-me
no mais alto abandono
de silêncio e prece
em indiscutíveis descobertas
entre amor e letras
mato a minha sede

 





Adriane Lima





Arte by Santiago Carbonell 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Pés andarilhos






Meus pés descalços
amaciam os passos
sem o enfeite dos esmaltes
percorri com pureza
a vastidão do arco íris
entre cores infinitas
não sei se borboleta
se pólen ou flor
sei que atravessei
os dias me baseando
em caminhos de amor







Adriane Lima











Arte by Ilse Klein 

A beleza do outro







Pobre borboleta liberta
seguiu o perfume no vento
não sabia que seu pousar
seria morte certa
quase filosofia de vida
aos olhos de quem está vivo
quase tudo se explica
ao se complementar
com a natureza
de homens e seus voos









Adriane Lima






Arte by Amy Judd

In Vazões





Ele entrou em mim
com a força
de um rio
quando estoura
uma represa

eu sem delimitar
as margens
fiquei vazante
e indefesa

depois de um tempo
respirei fundo
foi melhor
fechar comportas
e aguardar
o ciclo das secas

de qualquer forma
seria evaporação
vinda de alguém
que apenas soube
manter-se em
liquida proteção







Adriane Lima











Arte by Alex Toddard

Cotidianas






A esperança ainda
se propaga pelo ar
efeito propaganda
aos olhos a se enganar

nem sempre aquele sabão
tira as nódoas do
branco total radiante

existem mentiras
tão lindas que
se tornam até
elegantes

os meus olhos
de poeta se fecham
é bem verdade

mas minha alma
de mulher as
engomam por vaidade

tudo passa
e no final
nem tudo fica

 





Adriane Lima





Arte by Ana Teresa Fernandez 

Dor guardada





Não,não
eu não tirei você
aqui de dentro
aprendi que o amor cabe
onde não há cabimento

 







Adriane Lima









Arte by Saturno Butto 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Onde pousa o sonho





Ontem perguntei a ele :
o que lhe importa mais
a fé ou o sonho
e olhando a lua

me respondeu risonho:

desde que o sonho não
me faça sofrer, preciso da
fé para faze-lo acontecer

e diante desse luar
sua esperança me deixou a pensar
não é preciso ser poeta
para guardar instantes

 





Adriane Lima





Arte by Christofen Cuseo

Entre eu e o uniVerso





Tenho pedido
uma crença de amor
um sussurrar de poemas
uma fé que me impulsione
um sonho que me domine
tenho aprendido
a ser refém do silêncio

 




Adriane Lima






Arte by Gaia Alari 

Mar absoluto





De teu deserto
vem meu mar
disseco sal
saliva em ventre
embate esse
de impreciso cais
ainda úmido de
tuas mãos
desejosas
de infinito


 



Adriane Lima






Arte by Rodolfo Ledel

Insólito desejo




Quando uma pessoa acaba
não se desmancha no ar
fecham-se histórias
que foram escritas
sem assinar
plágio do desejo
de uma imagem
que estava a se formar
ainda hoje não sei
se choro ou rio
desse seu desmanchar

 




Adriane Lima







Arte by Gaia Alari

Segredos de um céu particular





Eu te sentia
feito tatuagem na alma
em um céu inventado
eu me mentia
foi esperança na calma
em um inferno quebrantado

 



Adriane Lima






Arte by Saturno Butto

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Sob os tempos de luxúria





Ah, minha querida
eu sou bem mais
a minha vida

Olho a sua Prada
e penso :
ela ladra,  mas,
não me morde






Adriane Lima 






Arte by Anna Halldin Maule

Invólucros da noite








Eu e meu gato
somos bichos da noite
o silêncio nos impulsiona
a seguirmos os desejos

vivo descobrindo a alma
acerca de nossos lampejos

ele cuidadosamente ataca
algumas de suas presas
eu delicadamente guardo
algumas de minhas rezas

sutilmente entramos em contato
com a nossa natureza

 





Adriane Lima








Arte by Catrin Welz Stein 

Asa interna






Li seus versos
aconchegada em ausências
envelopes lacrados
em línguas segredos
as asas das lembranças
sobrepuseram os medos
desatinada borboleta
sempre sentirá
saudade da luz
de seus olhos acesos

 




Adriane Lima






Arte by  Shiori Matsumoto

Transparências do tempo





Vestida de nuvens
gestei-me no tempo
em sua espera

com o olhar distraído
desculpava ausências

ao pesarem as asas da ilusão
descobria

que nossa cumplicidade
só existia
em minha imaginação

 




Adriane Lima






Arte by Catrin Weltz Stein 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Hiato de proteção cotidiana




A miséria tem sempre
um suspirar profundo
um olhar idêntico
a todos deste mundo

a miséria sofre em silêncio
feito as heras nos muros
cheira a flor murcha
esquecida da realidade

a miséria veste trapos
das mãos da compaixão
e seus inúmeros tormentos

a miséria não escreve
nem lê por linhas tortas
ela veste máscaras desde
que o mundo é mundo

a miséria arranha
a superfície rasa dos sonhos
e abre as feridas
das perplexidades da vida

a miséria vive das sobras
entre sombras existenciais
onde o fedor habita
as latrinas que se erguem
entre as diferenças pessoais

a miséria sela destinos
de meninas e meninos
que caminham entre flores pisoteadas
dos que creem em inócuas dores

a miséria permanecerá
procurando razão entre os vivos
para não contar aos mortos
sobre a fome e seus gritos



 



Adriane Lima







Arte by Suair  Shuai 

Entre mosaicos do tempo

 


Eu sempre tive mania
de contar tudo que via :
contar os tijolos dos muros
contar os azulejos da cozinha
contar as pedras entre as
pretas e brancas do caminho
contar meus lápis e canetas
contar as pétalas de uma flor
contar puxadores das gavetas
contar as estrelas do céu
contar os livros de uma estante
contar, contar e recontar
quando me sentia em
um momento entediante
era como se esse gesto
me organizasse por dentro
regulação do tempo e exatidão
e hoje o que me causa mais espanto
é só conseguir contar
fragmentos de palavras
soltas em meus poemas
é a forma de me organizar
e contar a todos os meus silêncios
quando me pego entre dilemas








Adriane Lima







Arte by  Alison Blickle

Ode as asas




Não foi do dia para noite
que passei amar borboletas
foi ao me ver mudada
presa em um casulo
e do dia para noite
me nascerem asas
desejei não a lápide
e sim um futuro

 




Adriane Lima







Arte by Dominique Fartin

Céu de poeta




Meu riso naquele dia
era pura estripulia
sensibilidade de menina
ecoando em cada livro
doados pelas mãos da poesia
Meu espanto escondido
entre tantas tristezas sem sentido
escoando pelas vielas do morro
Meu caminhar puro desconcerto
habitando em cada casa do lugar
Hoje já não cantaria
-"o morro não tem vez"
quem ali sobe e vê o Redentor
de braços abertos
ao humano calor de sua gente
sente em cada menino
como um sonho de escritor
que quer cuidar do mundo ao redor
guardar a dor que lhe dói
enquanto olha o céu azul
longe dos olhos de
sua própria imagem de chão
exaltada nos muros coloridos
que retratam a alegria
deste mundo de sonhos
de homens, meninos e de poetas
que sempre continuarão acontecendo ...






Adriane Lima







*Morro Santa Marta / outubro 2014 *

domingo, 2 de novembro de 2014

Melodia íntima





Tropeço no que não ouso
pensava ela a despeito de tudo
esquecera seus sonhos
esse cantar de fêmea
efêmero desejo
envelhecido e aprisionado
um blues atravessado
um amor desritmado
a travessia no abismo
que sobre ela pesava
a imagem extirpada
o dilema do absurdo
dizia ela: tudo me resgata
e tudo me apavora
risquei do itinerário
o sopro das verdades
sulcado no tango d'alma
resta hoje, apenas o instante
o fragmento inusitado
da hora vital embora morta
apenas a voz
tem desejo de infinito ao
escapar do mais profundo grito
que ficou lá atrás
no coração dos amadores
sim, dizia ela : eu sempre quis
eu sempre quis
dar voz e melodia
aos meus sonhos sufocados
e quem ousa cantar
sem ser escutado ?
é sempre a mim que recorro
ao meu canto triste e rouco
nesses tempos derramados

 







Adriane Lima








Arte by Alessia Ianetti 



Ao princípio do Ver(bo)




Eu entendo nossas vidas
entre signos e significados
esperanças perdidas
horas alinhavadas
entre idas e vindas
o instante do encontro
a dimensão do olhar
o suspiro da presença
o desejo e o desejar
nunca o hábito
de selar espantos
sempre a placidez
de esperar sorrisos
nunca a recusa
dos próprios perigos
sempre sentimentos divididos
entre a soma dos pretextos
e nossos líricos contextos

 





Adriane Lima






Arte by Johanne Cullen 

Intempérie sentimental







Gosto de conviver
com a solidão do inverno
os dias cinzas, as tardes silenciosas
me remetem a fria monotonia
Não suporto conviver
com a solidão do verão
os dias azuis , as tardes sonoras
me remetem ao calor das festas e a alegria
é a solidão do inferno

 




Adriane Lima





Arte by Mônica Fernandez
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