segunda-feira, 31 de março de 2014

Onde você mergulhou em mim

 
 
 
 
O ponteiro avisava
o céu mostrava
o sol acanhado
dentro do verso
que dormiu comigo
a verdade clareando
o dia
tecelã e teia
alvo e destino
sobre a felicidade
cheia de imãs
atraindo sonhos
bastou o sorriso
o simples sinal
para alcançarmos
nuvens coloridas
e a aeronave
que riscava o céu
refletia em seus olhos
uma urgência de pontes
teu mundo calado
e meus calafrios
os outros sentidos
se acomodavam
o nó do impulso
na quebradeira do coração
emergindo os breves
segundos e seguindo
universo incerto
me beije ou me deixe
com gosto de adivinhação
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
Arte by Gabriel Meiring 

Essência noturna




Eu moraria em teus lábios
em tuas falas guardadas
palavras e punhais
secretos e sanguíneos
podendo transbordar
um hiato em vias de fato
deserto encontrando mar







Adriane Lima









Arte by  Sergio Martínez

segunda-feira, 24 de março de 2014

Deglutições ao ar






...e a vida virou fumaça
em um pedaço de papel
quando ela pensou em
fazer pirraça
agi primeiro:
- traguei-a 




                                         





Adriane Lima  










Imagem retirada da net

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sob a tenda dos milagres





Tudo que hoje me veste
e ao mesmo tempo me despe
vem da essência ilusória
do circo mundano
a qual sobrevivi
da amargura de Sartre
da simplicidade de Coralina
da mudez vibrante de Chaplin
da imensidão de Beethoven
da alegria de um Kandinsky
de um abismo Lispectoriano
da loucura de um Bosch
da harmonia de Bach
sou alegre porque vejo beleza
sou triste porque vejo efemeridade
minha alma se faz presente
mesmo vestida de ausências
eu não penso na existência
eu sinto ,
o que me toca
me acariciam os dias
me engrandecem as faltas
há muito abri as asas
e as janelas da alma
sou leveza e escolhas
quero tudo que possa
ser vivido com intensidade
e tudo que for pesar e não
puder ser resolvido
que passe como Andante de Mozart
irretocável e marcante
que fique a ternura que se fez ofício
nesse exercício diário do coração
de eterna figurante

 






Adriane Lima





Arte by  Amy Lind

Jardim de esfinges




Aceitei a regra
decifra-me
ou te devoro
me fez de poema
e me enxergou poesia
o que escrevo
não me descreve
confundo
com minha vastidão
e solitude
com minhas palavras
e inquietude
me deste uma rosa
e depois outra
e entre as pernas
ousaste as pétalas
e uma rosa
é só uma rosa
plantei-me
diante do espelho
senti que a rosa
não me comportava
só meus olhos
me descrevem
ao ser a rosa
já decifrada

 





Adriane Lima





Imagem by Kimberly Ann

quarta-feira, 19 de março de 2014

Trajetória inesperada





Carrego o desejo
atado em pele nua
sonho e me
dispo de tudo
que tenho
diante do amor

quando te beijo
minhas palavras
tem livre acesso
entre o céu
de nossas bocas

traço a imaginada
rota desconhecida

pelo entalhe
entre a carne e
teu suspiro

e mesmo que
na lascívia
eu não saiba
ser de alguém

dentro de tua boca
peço que me ensine
e me cale

me contamine
de teus versos
ao rasgarmos
verbos em voz alta
e gestos
no mais puro orgasmo

em plena nudez poética
acalme meus instintos

 






Adriane Lima





Imagem retirada da net 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Acima do sol




Cada um visita
seu inferno diário
perguntando a noite
perguntando ao dia
soluçando nos desencontros
queimando fotos
escondendo memórias
protegendo-se dos assombros

-e sempre é noite
o escuro vassalo
grita em nome
de um Deus
que não pode se defender

as respostas lhe parecem
dignas
enfeitadas por flores
que ele mesmo plantou
tudo passou do ponto
passou do tempo
em que lobos
abocanhavam suas
presas e ficavam impunes

hoje não há mais
ninguém para ser
jogado aos lobos
os lobos são internos

e caminham em nossos ossos
circulam em nosso sangue
perambulam em nosso gozo
dobrando nossa morte
além
e eu vou
aquém das asas
voando em
minhas levezas
internas
amém 

 






 Adriane Lima






Arte by  Ricardo Fernandez Ortega

domingo, 16 de março de 2014

Tua beleza bélica




Ele me disse
que a vida nada valia
é verdade que a vida
vale o fio da esperança

um dia triste
um dia alegre
um dia dançamos ao vento
noutro
não aceitamos a contra dança
o sonho da infância
das cadeiras em círculos
sempre faltando um lugar

onde vou? onde você vai ?
de que vale tudo que a gente viu?

o sol brilha sem se importar
se há alguém sob ele
extasiado, mal amado
ou com sede frente ao mar
além de nós existem
milhões de sóis brilhando
em cada mão
que colhe e mata flores
em cada mão
em busca de outra
para depois soltar

em qual linha tortuosa
se encontra a salvação ?

a vida é de verdade
encenamos uma boa parte
para no abismo
as máscaras retirar

a flor não acorda
desabrocha
tubarões tem stresse
e vão para as cavernas
a fruta madura perde
o conforto da árvore
chove em dia de encontro
o gás acaba no meio do jantar

a vida é por um fio
me resta não valer
das palavras de consolo
do romântico e tolo
que não faz nada para mudar
enquanto chorava dizendo
que a vida é bélica
e deixava o belo passar

 




Adriane Lima






Arte by Harry MacCormick

Épico circense

 
 
 
Ele se cansou da poesia
impotência das letras
ele se casou
com a burguesia
importância aos gametas
- virou um ser masculino demais 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
Arte by Victor Bauer 

sexta-feira, 14 de março de 2014

A liquidez dos sentidos



Não,ninguém sabe
o quanto pesa
fazer um poema
e depois outro
e mais outro
e amontoa-los
em caixas

sobre estantes empoeiradas
sob memórias póstumas
sonhos equivocados
recheados de palavras
densas ou envoltas em asas

a matéria : - palavra
pesa muito
até quando cala

nada te devo
gritarei ao poema

para a poesia
ainda devo e muito
é desse lirismo
que ainda me visto

não, ninguém sabe
o quanto pesa
essa minha caixa
de poemas

tão pouco eu
que sonho fazer
uma imensa fogueira
e transforma-los
em fumaça

nuvens de poesias
se moverão
em meu céu
logo,logo


 



Adriane Lima





arte by Mihai Christe

quinta-feira, 13 de março de 2014

Poética constatação




Ao varrer a casa
noto que na vassoura
emaranham-se fios de cabelos
eis que meu gato os pega
como fossem um grande novelo
percebo-me então
Ariadne nesse labirinto casa
cômodos, embates e portas
onde o tempo obrigou-me
a perdê-los

 



Adriane Lima




Arte by Christian Schloe 

Sabores estacionários




O gole de café  pela manhã
sabor deglutido e sentido quente
na garganta
ao entrar no corpo
hoje cansado

na fragrância
evaporam as lembranças
da menina ou da mulher
que um dia fui

no peito gélido
apunhalo marcas
onde tuas mãos
eram presentes
se falo do amor
de menina
minha alma e meu corpo
sonham

se falo do amor
de mulher
minha alma e meu corpo
sangram

o que me importa
a todo custo
é que o amor
ajude a conservar
esse mistério vivo












Adriane Lima








Arte by Jordi Diaz Alama

O sopro da criação


Pela janela vejo
um gavião solitário que sobrevoa o céu
Provavelmente a procura de sua presa,
sua caça, seu alimento
O que para ele, não é tormento
a dor que irá provocar.
A sua saciedade é
a dor rápida da morte escolhida.
Alimentando-se daquele que
placidamente caminhava
sem saber dos perigos
que o rondavam.
Não há lógica na dor
mas há lógica, em se alimentar
Em engolir por instinto
a própria sobrevivência
Como o mito de Prometeu
e Epimeteu diante a criação
da raça humana.
Eis em cada um de nós o sopro divino
com o ar.
O desejo de Prometeu : o que pensa antes
ou Epimeteu: o que pensa depois.
Assim podemos escolher ser caça e alimentar
a dor.
Ou caçador e cozinhar o alimento.
- nem todo gavião pode nos sangrar o fígado.



Adriane Lima
Imagem retirada da net 

terça-feira, 11 de março de 2014

Diagnose

 
 
 
 
é muita insônia
o que sinto
insônia sim
sinto
na carne
na alma
 
insones em absoluta fala
da vida repensada
em plena madrugada
que foi feita para dormir
 
é insônia
o que sinto
é o ócio é o nada
que passeiam em mim
 
em minha insônia
soam músicas antigas
gestos delicados
o céu e o inferno
revisitados
 
não me vem os pecados
pois não creio neles
não me vem os pesos
pois não cultivo pedras
 
 
minha insônia
é vertiginosa
de fácil diagnóstico
é causada pelos
beijos de boa noite
que há muito já não posso dar 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
Arte by Alessandro Marziano
 

Lirismo noturno




Sentada no tapete da sala
vejo nele a cor da poeira do tempo
que me serve de chão

o teto, meu céu embotado
e silencioso placebo
apenas sombreado pela luz
do abajur
- não desejei estrelas

algo se transforma em pranto
não pela tristeza
mágoa que se sofre
feito aspiração

o riso sempre foi
minha arma de transformação
essa sensação
não é questão de alma
é esta variável vida que mostra

o que ontem li em um poema de Chacal :

- "... chegou a hora de mudar o estilo
. de mudar o vestido
chegou atrasada como um trem atrasado
mas que chega"...

busco meu sono e sei que amanhã
será um dia de novas possibilidades

 




Adriane Lima





Arte by Christian Schloe 

domingo, 9 de março de 2014

Do sonho ao sono



É preciso admitir
que se aprende sim, com mestres
e tudo que nos encanta
assim como Gauguin pintava com van Gogh
e tinham pontos de vista tão diferentes
assim como Camille se inspirava em Rodin
até se apaixonar perdidamente

mas,também se aprende muito
com os clichês :
- amar se aprende amando
- quem espera nunca alcança
- de perto ninguém é normal

todo mundo precisa crer em algo
para se fortalecer e se afirmar
tipo raiz de árvore
ou :"serei aquela imagem "
de quem admiro e quero me orientar

não há como se alienar
querer ser o que não somos
ser o evasivo e não se olhar
não achar que só os loucos
pressentem

podemos sim,perder a magia
perder filosofias
perder alguns verbos
para não se enganar

tudo tem o limite
que lhe damos
esse é nosso poder

ás vezes damos asas as cobras
enaltecemos as pedras
que não saem do lugar

ah, eu ainda acredito
que é preciso florescer sim
entre mestres e clichês
e até ler algumas parábolas

ainda sei separar o trigo do joio
quanto ao leite das pedras
ah,isso eu nunca tentei

 




Adriane Lima





Arte by Paul Gauguin 

Carne viva





Hoje não é feriado
é um domingo atrasado
como tantos outros
onde nada se move
além de uma folhas
umas nuvens plácidas
e meu gato a se espreguiçar no sofá

eles se movem e assim
movem meus pensamentos
o som de todo esse silêncio
traz uma tranquilidade
que nada pensa sobre si mesma

há tanta beleza nisso
há beleza nessa passividade
onde a alma fica tranquila
como a superfície de um lago

enxergo infinitudes que me
pertencem e seu destino
embora eu desconheça
sei que nada sou e nada quero

há muito tirei meu "time de campo"
desse mundo de mentiras encobertas
de palavras que saem fáceis
e pesam em constrangimentos

sigo viajando por espaços
onde me caibam de verdade
onde minha vontade vai desejosa
embora o encontro nem sempre aconteça

há muito tirei "férias" desse universo
paralelamente traçado para ferir
onde peixe grande engole o pequeno
apesar de ser a lei da vida

das leis que conheço
poucas me valeram de verdade
o mundo anda particular demais
egoísta e interesseiro em excesso

e nesse meu tempo
prefiro manter-me humilde
e silenciosa em minha ignorância
nem sempre é preciso entrar no jogo
não ser a favor, nem contra

o que interessa é se mover placidamente
feito :
- as folhas
- as nuvens
- e meu gato

 



Adriane Lima




Arte by Christian Schloe 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Prato de cerejas





Talvez eu use vermelho já entrei e sai
trinta vezes do espelho
talvez eu só pinte as unhas de carmim
quero algo que lembre sangue
colado em mim
glorificado em corpo e espírito
o mal sem raiz
ando em quietudes anêmicas
algo de ausências
ao viver me rendo
ao ardor me bordo
alinhavo palavras insensatas
vermelho é sólido
o tempo é liquido
estou nele para evaporar
 


 
Adriane Lima



Arte by Karol Bak 

Cotidianas

 
 
 
Logo cedo
tento realizar um mantra
é a redenção ao medo
igual 
quando o isqueiro falha
ao acender o último cigarro
 
algum anjo deve estar de sobre aviso
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima  
 
 
 
 
 
Arte by Gabriel Picart

quinta-feira, 6 de março de 2014

O silêncio dos hibiscus



Minha natureza é estranha
a raiva me sobe
o sangue me jorra
e fico ainda mais efusiva

minha dor está nas linhas
meu eu nas entrelinhas
ambos se manifestam
e continuam lutando

na alquimia dos sentidos
entendo as energias
dou cor as euforias
muito embora poucas restem

no fundo não lamento
talvez o esquecimento
seja a maior redenção
alma que não fala
aprisiona o grito

já adiei tanta sede
frente ao copo
já sequei tanta água
dentro ao corpo

a vida cobra uma rotina
tomo um café na cama
abro as cortinas
vejo um céu nublado
pressinto ser pecado
me entregar a escuridão

deixo então, tudo fluir
o melhor sorriso a me vestir
embora dentro esteja em febre
reajo a toda combustão
raiva, incerteza e solidão
e a química produz efeito :

vou de frente ao espelho
me permito então errar
ao ter tentado enxergar
alento onde não havia

respiro fundo todo
esse sacrilégio
de um dia ter escondido
o tédio, que era viver
te inventando para existir

 


Adriane Lima






Arte by  Alessandro Marziano
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