quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Eu queira ver, sem enxergar


 
Acordei com os olhos iluminados
um brilho de magia vinda
do doce de uma flauta
que ainda ecoava em mim


Essa cidade nunca dorme, pensei,
e seu sonambulismo promove
o belo e o ruim.
e lá estava eu, acordada
dentro de um domingo qualquer


Enxergando a vida sem heroísmo
através daqueles que não
entendiam de poesia e vagavam
entre muros pichados onde eu,
não encontrava palavras


-além de dor, dor e dor -

Os prédios ocupados por miseráveis
tampando entradas com pedaços
de madeira, escritos frases de esperança
e flores enfeitando paredes
desgastadas pelo tempo.


Meu olhar atônito que a tudo absorvia
embaçava-se nos vidros confortáveis
do carro importado, onde seguíamos
ouvindo nosso jazz requintado
e nossa enfadonha meritocracia


Através de seu sorriso e seu olhar
de nostalgia, me apontava a arte
onde só tristeza havia.


Quase que gritei: pare, eu vejo
em cada pessoa que passa, em cada
esquina que cruzamos, a solidão humana
estranhamente ímpia e perdida.


Mostre-me onde a vida arde
e a beleza não entra em combate
com essa tal filosofia :
"o que não mata, fortalece"
quero blindar meus sentidos
para esse dia






Adriane Lima







Arte by  Sean Moro

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A dor da beleza





O amor dilacera feito garras de urso
O amor adormece ao lado ouvindo seus sussurros
O amor justifica maldades alimentando-se 

do mel(hor) de você







Adriane Lima






Arte by  Oleg Oprisco

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Entre o bem e o mal




Não sei se fico
não sei se vago

não sei se rio
não sei se lago


não sei se levo
não sei se trago

não sei se me cego
não sei se me calo


as dúvidas
as dívidas


maciez ao contra senso
do que me arde

antes tarde do que nunca
 

maniqueísmo selvagem
há quem se salve
há quem se culpe


escolher a renúncia
esquentar a aorta

saber-se saudade
ao fechar a porta





Adriane Lima






Arte by  Daria Petrelli

Onde me perdi




Se eu quis abraçar o mundo, 
acredite, não foi com os braços
e sim, com meus olhos de poeta






Adriane Lima







Arte by Lissi Ellen


 

Aquilo que me veste



Eu gosto de pessoas que de um jeito tão simples, 
tão honesto, tão doce, tão verdadeiro sabem como caminhar nesse chão
Não quero que venham com muito
Basta que tenham verdades no coração






Adriane Lima







Arte by Rossina Bossio 







Imersão




Aquela sensação de completude
uma imensa entrega ao silêncio
onde se pode ouvir as batidas
do próprio coração
Dei a isso o nome de: esperança...










Adriane Lima




Arte by Daria Petrill


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Onde dormem as palavras




É preciso sagrar-se mortal
e merecer a felicidade celestial

O esquecimento , o ódio e o medo
não são palavras desumanas
use-as verdadeiramente
e liberte todas as rimas
as resmas, as teclas

Marque feito gado o que te cerca,
te incomoda e ao mesmo tempo te domina
me cansa essa aliteração
de asas, de casas, de brasas

Esse amor sem riscos
e contentamentos
que jamais te faria pensar :
-nunca sou, mesmo sendo

Incansavelmente repito
o mesmo movimento da alma
que cala a cada manhã que te nego

quando leio em teus olhos
o destino do meu dia





Adriane Lima







Arte by Cristina Fornarelli

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Manobras de libertação





Sobre as portas que você fechou
há muito tempo perdi  as chaves
é de minha natureza
preferir asas
sem me importar de sair pelas janelas







Adriane Lima







Arte by  Juliana Rabello

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Inquietude









Não venha hoje
com seu jeito de Centauro
dizer levezas em poesias
sussurrando para me atiçar


Só desta vez não vou vestir
o meu casaco de estrelas
nem dançar com os ventos
para aceitar seu convite


Em seu corpo conheci
a mentira diante o abismo
o peso das patas
cravadas em meu peito


Não mais me entrego
a sua boca de metáforas
quero um mundo habitado
por homens inteiros


Que eles atravessem
o que antes foi fronteira
e amansem minha
indomável sede
do desconhecido








Adriane Lima








Arte by Celine Excoforon

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Por entre vazantes


O tempo é exato
diante as coisas mínimas
onde quase assistíamos juntos
um naufrágio voluntário


parecíamos atentos
e não encontramos
em nossos mares
uma correnteza para
palavra Não


Um silêncio, entre corpos
rimas molhadas
por enganadoras reticências
identificadas pelo antigo viver


como entrega de cadela sem dono
a alma esquece o abandono
navega na curva sonora
sem nenhuma explicação


o que eclode certamente
ninguém sabe, no entanto
os sentidos vivem
na resistência cotidiana


embarcamos sempre
em nossas possibilidades
guardamos o caminho
ao tocarmos os instantes


porque sempre houve um cais
em nossos pés de abismos








Adriane Lima















Arte by  Alex Stevenson Diaz

Ilusão colorida

 


Faz sentido um mundo
que se esvazia para o nada
uma solidão diferente
que se encosta complacente
entre estrelas e vaga-lumes


canta feito pássaro matutino
sem se importar se ouvirão
sussurra segredos
com jeito felino
a espreguiçar-se 

como flor desabrochando

entre vales e montanhas desapruma
tece as tardes em bordados
onde a relva toca a pele
e o rio sabe que anoitece
no coaxar da monotonia


ali estavam meus olhos
sem nenhuma intenção
de palavras e vozes






Adriane Lima





Arte by Christophe Van Daele

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Frágeis ponteiros




Cada uma de minhas aflições
dorme em uma onda do tempo
peço a Chronos que pare
e reúna os pedaços perdidos.
 
Eu imploro que decifre caminhos
e o laço solto entre destinos,
ele não ouve nem mesmo meus sonhos
 
Quando grito que estou envelhecendo
ele ri e me brinda com indiferença
sabe de antemão como funciona
 
Sem misericórdia recolhe
meus cacos e
diz que não há segredos:
o tempo não pode ter calma
 
Nele estão os espelhos quebrados
com desgastes de cenas antigas
a terra encerra o corpo
o céu liberta a alma
 








Adriane Lima









Arte by  Brigitte Byron Coons

Algumas intimidades


 
Não diga
que meus olhos
são tristes
eles enxergam tanta
alegria
quando de frente aos seus
 
Meus olhos
aprenderam a aceitar
o amor e a saudade
morando na mesma casa
 
Gosto de dizer
seu nome em voz alta
ele toma a forma
de tudo que mora aqui
 
a vaziez dos cômodos
se enchem de sonoridade
e teu cheiro compõe a
lembrança quando
me deito entre lençóis
sprayados de lavanda
 
 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Belarmino Miranda

Entre abraços

 
 
Me leva
eu dizia
de forma imperativa
 
e assim
meu corpo
se sentia seguro
 
foi o átimo
o passo em falso
 
me leva
eu dizia
de forma imperceptiva
 
e assim
minha alma
se tornou vazia
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Roni Di Scenza

Com a força das marés






O meu amor
foi aflição verdadeira
teve a força
das marés
para apagar seu nome

como se fosse na areia









Adriane Lima












Arte by  Rauf Jenibekov

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Recompondo-me


 
 
Com os pés cansados
piso levezas
com as mãos umedecidas
troco carícias
 
Com os braços tensos
aperto o peito
com a ponta da língua
roço palavras
 
No fim de tudo
construo em braile
meus pensamentos
nesse enlevo
de estar viva
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by Cristina Fornarelli

O espanto das estrelas

 
 
 
Há sempre um risco
e um pedaço de esperança
para atravessar
os campos de guerra
 
meu corpo em talhos
ressente a lâmina
que tem fome
 
há de se cortar
e ninguém morre
há de se escapar
e ninguém vive
 
meu corpo inteiro
nunca mais senti
entre meus dentes
palavras escondi
 
a vingança apaga a memória
meu silêncio é de pedra
moldada em muro
já não deveria decantar
a velha alma que nasceu para o escuro
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Arte by  Horion Lee
 

O que trago no olhar






Janeiro passou
e nem vi
A janela embaçou
e nem vi
Me acostumei
a ter olhos
de neblina






Adriane Lima






Arte by  Mi Kiung Choi

Letargia

 
 
 
Ainda há luz
das janelas
na madrugada
 
Ainda há luz
nas janelas
de minha alma
despedaçada
 
 
 
 
 
 
Adriane Lima
 
 
 
 
Arte by Catrin Wells Stein 

Atraindo infinitos





Caminho sobre os muros
equilibrando-me com as mãos
observo pássaros livres
em perfeitas acrobacias
 
liberdade está na asa?
por isso eu não me basto
e arrebento o coração
 
O sol cintila em céus azuis
e eu grito em minha mente
pedindo paz, para minha exaustão






Adriane Lima








Arte by Catrin Wells Stein 

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