sábado, 15 de abril de 2017

Ora direis, criamos flores



Eu sei quando te amo
quando penso em você
e sorrio com os olhos perdidos

quando levanto e vou até
o meu jardim com uma xícara de café
nas mãos, lembrando sua indicação
de que era preciso
tirar a água antes que fervesse

quando ando pela casa pensando
o que fazer ao entardecer e tendo
a certeza da solidão como companhia

quando faço a grande alquimia entre
mil temperos e cheiros e danço na cozinha
como fazíamos entre os domingos

quando minhas dores cinzas
transformam-se em tons alegres
e relembro de tantas coisas que aprendi

quando com minhas sombras me confundo
e busco teu corpo para abraçar

eu sei quando te amo
quando todas as metáforas fazem sentido
e sei que tudo na vida,
não valem os poemas que li

os medos dos quais fugi
quando não é mais segredo
as letras, as histórias, as bebedeiras
os lugares, as situações inenarráveis

que guardarei na memória





Adriane Lima













Arte by Geraldine Muller








sexta-feira, 14 de abril de 2017

Onde deixei minha via crucis




Estou sentada à beira da porta
nesse dia silencioso.
A poeira tomou conta dos batentes
e tudo que penso é no vazio da queda
das formigas que por lá passeiam.
Até os pássaros resolveram não cantar.
Começo então, a contar tudo,
que está ao meu redor: ladrinhos,
árvores, galhos caídos ao chão.
Percebo então, os paradoxos desse mundo cão.
A lagartixa negra camuflada na parede branca,
a grama que cresce e mata as flores,
o animal que urina onde se alimenta,
o céu azul que é peso e me dói nos ombros.
E essas horas tristes, que nunca passam,
sempre um outro tempo de decepções.
Cristalizo-me por saber que de nada adiantaria
inverter o passo, correr para trás o tempo.
A dor de não pertencer a nada, só não é maior
que todos os sonhos roubados.
É dia santo bem sei, e toda verdade que há em mim
desfez os laços das mentiras que há em ti .
Abri minha caixa de mágoas, joguei uma a uma
na água escorrida da sarjeta e fui buscar minha alegria
exilada em alguma esquina, onde a vida já me sorriu
e eu distraída não prestei atenção.




Adriane Lima



















Arte by Jan Saudek

Adocicados enganos



Eu sou aquela
que faz bonecos de neve
em pleno trópico quente

luta contra moinhos de vento
em pleno deserto da mente
escala montanhas de sonhos
deitada no sofá da sala

que retira a lama
tendo os pés em nuvens
a que doa o punho à navalha
sabendo que não corta nem água

que deseja a alma suja
retirando poesia dos dias
a que possuí castelos
e dorme na alcova

oposta a tudo
libertária de pássaros
em pleno voo
eu sou aquela
assustadoramente só







Adriane Lima









Arte by Galya Bukova

De onde vim



Vivi para inventar
um tempo que nunca existiu
um amor que nunca ficou
uma dor que nunca passou

um caos que perpetuei
uma morte que não engoli
uma coragem que nunca tive

a palavra, o gesto a poesia
o assombro ao criar dores
cortando-se diariamente
para beber o próprio sangue

pedir perdão ao átimo
onde a realidade fugiu
onde a corda rompeu
onde o sonho acabou

e chegar ao outro lado
salve guardada de meus pecados
por ter matado aos poucos
minha plena vontade de vida







Adriane Lima





Arte by Kari Lise Alexander

Tempo de doer



No começo de mim
era rio, pastos alagadiços
terra de chão batido
muros baixos, caminhos livres

Novo tempo de mim
varandas altas, apartamentos
ruas desconhecidas
onde aprendi decorar nomes

Esse tempo de mim
de perdas, descaminhos
sonho de um lar, caos sem casa
pedaços esmagados em solidão,

feita de mortes por dentro
onde hoje, os rios são rostos
que passam e se modificam

sem paradas, seguem fluxos
entre os dias que no leito
eu mesma -teimo em não mais adormecer










Adriane Lima







Arte by F
orooghi Forooghi


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Olhos narcísicos



Diante de um encanto
sou lírica em demasia
vejo além do que meu olhos alcançam
em métricas fotografias
sou enquadramento, a lente
desse seu olhar de poesia.








Adriane Lima











Arte by Charmanie Olivia

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quisera saber



O tempo, mora em uma casa que ele pouco frequenta.
Sabe seus costumes, suas lendas, sabe das saudades apenas um terço.
O tempo devora em mim o que decifro.
Mesmo que doa em nós, as diversas casas que não habitamos ...

















Adriane Lima






Arte by Marina Diel 

Quedas míopes





Dos abismos que há em mim
não sei porque é assim
mágoas não se dissolvem
em lágrimas livres
presas em abraços







Adriane Lima





Arte by Alessander Levausser

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Palavras de proteção



Construo palavras artrópodes
proteção que não caberiam
em nenhum corpo

palavras em exoesqueleto
armadas, duras, revestidas em segredos
palavras inúteis
tão híbridas que não servirão
para nada

as palavras sendo signos
vindas de um monólogo divino
entre Eu e meu próprio umbigo

palavras artrópodes
me desamparam ao menor
sinal de perigo

palavras cheias de dedos
silenciam a pulsação do universo

em meu poema
não construo palavras artrópodes
sílabas frágeis, esvoaçantes

palavras me escapam e sobrevivem
da minha falta de sorte




Adriane Lima





Arte by Prashant Nayak

Poema reflexivo



Olho sua fotografia
finjo que não te reconheço
talvez me livre da culpa


queria ser a entrega
e sou a própria desculpa

de uma dor maior
de não nos espelharmos mais






Adriane Lima










Arte by Frans Kronjé

Os lugares de mim



Tirei o domingo a tarde
para ler meus poemas antigos

ver quem eu era tempos atrás
como eram meus amigos

vasculhei entrelinhas
parei para relembrar
revisitei minhas dores

voltei em busca de mim
e me vi diferente

meus erros, medos e amores
não tem hoje meu espanto

quero agarrar a realidade
e me conhecer de novo








Adriane Lima







Arte by Prashant Naya

Onde existe o espaço



Chegado o equinócio do outono
se fosse eu mapa
e você bússola
sei que estaríamos perdidos














Adriane Lima










Arte by Gerard Schlosser



Poema sobre a mesa



Viver para pagar contas
pagar o pato
pagar o preço

morrer para apagar pegadas
apagar memórias
apagar segredos

e ser só
paz






Adriane Lima










Arte by Vitor Lolli

sexta-feira, 24 de março de 2017

Eterno



Algumas madrugadas
nunca acabam
perfumes de histórias
permanecerão 
entre os lençóis da memória








Adriane Lima








Arte by Ágata Endo

Filosofia Poética XIII



Que todas as manhãs dance em nós a estrela bailarina,
entre acordes de sorrisos, como se fosse dia de festa.
Para que possamos apreciar a arte de estarmos vivos,
juntando desafetos, mágoas, e entre um passo e outro
transformar tudo em rodopios de levezas!!!













Adriane Lima






Arte by Cristina Fornarelli


.

Filosofia Poética XI



Levezas, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro, claro que, incertezas estarão presentes entre os mais sólidos desejos.
Só não se deixe levar por uma triste frase que diz assim : -"durante sua jornada você conhecerá muitas máscaras e poucos rostos.
" Reformule -a e acredite em sua intuição.
Só se mostra de verdade aqueles que confiam, aqueles dispostos a partilhar dessa imensa viagem chamada vida, os demais, apenas aproveitarão as paisagens...




Adriane Lima


















Arte by Galya Bukova

quinta-feira, 23 de março de 2017

Asas de mim



Nasci pássaro
é na dobra de asas
que guardo afetos
eles nascem do que retenho
e não mostro para ninguém









Adriane Lima








Arte by Marina Diel 

Incômodos



Dona do sangue
e do abismo
onde encontra forças
para segurar nas mãos
todos os pedaços fatigados
de suas dores?

Ensurdeceste bem sei
e de pedra virou seu peito
cada palavra em poesia
oferece a leveza da crença
no dia a dia





Adriane Lima







Arte by Vitto Lolli

Acontecências



Sei que para você
não passo de um corpo
branco, liso
marmóreo

Esse corpo mármore
em que suas mãos moldava
cada entalhe e sentia
que eu estremecia a carne

porém,a alma não 
essa nem estava ali





Adriane Lima










Arte by Titti Garelli

terça-feira, 21 de março de 2017

A epiderme cálida



Lateja in memorian o que sinto
a carne de outrora
não satisfaz mais o desejo
o mundo se acostuma
ao que é do homem

Volúpia consumida entre dedos
escorre por todo corpo
indiferente a dor alheia
que sabíamos ser o escape
ou solução ao segredo

Se pudesse encontrar uma palavra
que descrevesse tudo que penso
dessa vaziez de sentimentos

Cárneos, olhos carmim
o cheiro do desconhecido
nos corpos nus amanhecidos
sonhamos ser o que não somos

A carne saída do cotidiano espelho
carne da tua carne
eu não a adentro, ela adentra em mim

Penumbra difusa que atravessamos
projetada no vil entalhe 
que já não importa tanto
o que tínhamos em mãos 
era tão mais significativo

Vocifero o que não pode ser domesticado
a dor, ao que verdadeiramente sentíamos
era gozo de alma, na leveza que aos poucos
habitavam seus olhos ternos 
e foi morte aos atos provisórios de outros

hoje mundos desabam onde
a carne respira mesmo distante
entre ensejos falaciosos e indiferentes




Adriane Lima



Arte by Cristhina Fornarelli


sábado, 18 de março de 2017

Prosa para pessoas sensíveis VIII



Sentada entre nuvens da tarde, o silêncio veio perguntar:
Sabia que o colibri sabe cantar? 

Sujeito sem tempo não pode escutar. O meu espanto imediato, falou mais que o barulho de um pássaro a trocar seu compromisso com o mundo, nele detém o poder em cada voo solitário ou não (o canto), enquanto eu percebo suavidade na rapidez do gesto o voo, tudo que muitos olhares nem sempre alcançam.
Eu queria fazer parte disso, enxergar diariamente o sol nascente.
Me basta ouvir o canto do colibri, ver o pulsar do dia, colher as digitais de um anjo, sentir o vento elevar as folhas e você ainda quer que eu entenda o que vi e ouvi nesse dia...?
De certo tudo deve estar sendo o que é !!! 
Sim: CANTA, eu respondi.



















Adriane Lima










Arte by Nik Helbig

sexta-feira, 17 de março de 2017

Essência divina



O que pensar
desse tempo, dessa vida
uns com fome de ser
outros com sede de existir

empresto meu olhar
a tudo que vejo
doar a alma é pouco
diante do que desejo

meu mundo não cabe
nos braços do pensamento
bate asas quer voar
cria um silêncio crepuscular

nesse mar de divindades
eu delicadamente a descansar
já que morrer é tarde








Adriane Lima








Arte by Galya Bukova

segunda-feira, 13 de março de 2017

Entre laços e luas



Olho hoje seu rosto
tão diferente de tempos atras
como se hoje
sua luz não existisse mais

como ter olhos para
teias tão frágeis
onde enveredava-me
tamanha admiração

esquecer o que não
nos convém, é dor
leve e silenciosa
cheia de urgências
em um amor de lentidão

ainda estamos de mãos dadas
de almas devoradas em algum lugar escuro

onde a lua chora nossas mágoas










Adriane Lima








Arte by Galia Bukova

Onde habitam as asas



As paredes de minha casa
cansaram de ouvir
falar de solidão

Descascaram-se
em lágrimas de
tintas enternecidas

Acordaram buscando sol
nos mofos das retinas
onde doía em silêncio
a desistência da vida

Entre noites escuras
abraçavam dores vazias
de pares e pés unidos

Nas paredes dessa casa
rachaduras de histórias
caladas entre curvas

Corpos que se transformaram
em fantasmas e vivem
a espera do tempo

Casa:- lugar onde habitava o sol
sem paredes 

e minhas aves de arribação



Adriane Lima







Arte by Galia Bukova

terça-feira, 7 de março de 2017

Para onde vai o que tem pressa



Se ela chora por amor
é frágil
se ela age com paixão
é impulsiva
se ela grita seus sentimentos
é histérica
se ela se mostra de verdade
é fantasiosa

qualquer coisa é motivo
para um sentimento levar a outro

Mulher
o que pode ter um ponto,
um desconto, um senso
um contra senso

Mulher
onde é teu paraíso
inferno se compõe
na mira eterna de olhos
que não sabem distinguir
tuas nuvens

Mulher
veias onde correm sentimentos
onde as razões não merecem
pesares pelo teu voar

Mulher
estrela maior
visitante das ruas
que se auto devora

Mulher
dona de todo e qualquer espaço
onde se mistura
a insustentável leveza do
que chamamos Amor






Adriane Lima







Arte by Paul Lovering

Onde dormem os sentidos



Não me venha com poemas
nem flores, nem palavras ansiadas
pela fragilidade do dia

não me venha falar de amor
o platonismo de Rimbaud
não me encherá o peito em suspiros

jamais a esperança sem movimento
na pele, na alma
sinto um mundo que arrepia
em cada silêncio que grita

não me venha com poemas
neste dia que me declaro fêmea


hoje,meu único desejo
é que sente-se aos pés
de meu coração e
com toda sinceridade
troque de lugar com a verdade

mesmo tarde, foi uma das
melhores coisas que fiz
mergulhar na vaziez dos dias
olhando meu reflexo na água
da mais pura fantasia
que é escrever poemas






Adriane Lima



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O solo ácido das lembranças



A cada manhã que nasce
procuro-me desesperadamente
desapareci lentamente

pedaços soltos no caminho
de tudo que fui e
sei perfeitamente
onde morri mil vezes

renasci teimosa
querendo num suspiro
tudo mudar
das pequenas coisas
ao mais interno mar

dores, pó, silêncio
contemplação, sonhos e
acima de tudo ilusões

plantei e colhi tão pouco
tudo em comum acordo
por sempre escolher
semear a paz em meio as guerras

busquei mãos no alto do abismo
o que sou em mim não há explicação
há um grito preso na garganta
de ter escoado minhas certezas

ingenuidade mergulhada em epifanias
do que há no peito entre as mágoas
que são de minha natureza













Adriane Lima













Arte by Alessandro Della Pietra 

Anáfora de mim



Caminho por esquinas
que não são mais minhas
fôlego roubado de antigas
inquietações que julgava
conhecer tão bem

dores novas em
velhas rotinas
bares, falsos abraços,
torpes amores, ilusões

A casa não é minha
já não habito um coração
aquele amor que foi vivido
escorrido ralo abaixo

sentimentos a perdoar
dentro de mim
aceitar o tempo a matar

queria dizer que é só cansaço
dizer coisas que logo passam
ter a certeza de verdade
diante desses dias tristes

morte anunciada nesse silêncio
enquanto sei que a quarteirões daqui
dançam carnaval em um botequim

é dor de futuro
que recai sobre mim










Adriane Lima
















Arte by Michael Creese 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Imagens do tempo



Mantenho o milagre
como se um anjo
coroado por pétalas
recebesse as lufadas
da alma do amor

Como se a entrega
fosse um lastro
céu e terra girando unos
reinventando o encontro

Deuses feridos molham
o altar das palavras
com o sêmen da vida
in vino veritas
onde nada existe

Há um peito calado
que a tudo resiste
emoção de não poder
ser barco e saber nadar










Adriane Lima













Arte by Jeremy Mann

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O medo da luz



Faminta era tua boca
de lobo enjaulado
salivava desejo
em busca de carne

Entre frestas do dia
pousava uma borboleta
em tuas dores conhecidas

Dividindo assim
o caos humano de cada um
a réstia do gozo imantado
de um incômodo passado
 
As palavras eram elos
colorífica aceitação
por estarem perdidos
num mundo habitado
por cães adestrados

Era a certeza de não pertencer
a esse mundo, além da poesia
de pertencerem 
a natureza de todas as coisas




Adriane Lima









Arte by Michael Creese

O que pulsa além dos olhos




Meu peito mistura amores
nele tudo cabe
amores que amei, os que julguei amar
e então acreditei, tudo abarcar

remanso mar transparente
que com o corpo abracei
o que a mente aceitou
sentimentalizar

destino dado a solidão
amor nascido de palavras
associação de verbos intermináveis
imperativa forma de se doar

meu amor crescia nas folhagens
nas encostas e carpadas
na aspereza e no medo

na neblina onde as cegas caminhava
desejando o reflexo
onde a carne já faltava





Adriane Lima






Arte by Loui Jover

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Entre recortes



Travo guerras
quebro em mil pedaços
a ansiedade dos anos
que passou guardada

Os cacos colho
em dias alternados
represando entre a saliva
alguns que não consigo
ainda, cuspir

Há um silêncio escuro
de alma partida
engrenagem e espera
em mosaica batalha

Unindo fotografias
músicas e assombros
crio formas
para sobreviver
a esse caos de amabilidades







Adriane Lima





Arte by Farnçois Fressiner

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Prosa para pessoas sensíveis VI



Até entendo sua bipolaridade
perdoo sua insensibilidade
suas vagas mentiras e falta de coragem.
tento não ouvir suas palavras trocadas
ao perceber minhas fragilidades.


Te culpo por nunca ter 
se desculpado de verdade
te culpo por me fazer conhecer
de perto a solidão e a ansiedade.

-não -não


Não há culpa, nem perdão,
aceito inteiramente em mim
essa paz que hoje me habita
ao lembrar de você sem sentir dor...





Adriane Lima





Arte by May Lively 

Silêncio furta cor



O absoluto do nada
átimo guardado
entre corpo e alma

sentença de morte
entre leveza e culpa
vaziez da mentira e a
estupidez da trapaça

a dor por viver
céu e inferno
nesse espaço
de tempo sórdido

o perdão derramado
de bar em bar
em madrugadas frias

o vapor albergado
entre próximas
vazantes de histórias

amor
labirinto de escolhas

e inexatas formas





Adriane Lima


Arte by Juan Martinez



domingo, 29 de janeiro de 2017

Em busca de um sol nascente




Embalada por uma
rede de sonhos
flutuava minha
criança interior

Era preciso colo,
acalanto, olhos fechados
ao espanto

De saber-se mundo
com pressa e
dores inevitáveis

Coração frágil
de menina
sem entender certezas
sem perder esperanças

Ouvidos voltados
para o canto
de passarinhos
para as cores suaves
de Monet

Crepúsculo em
ponta de dedos
embasando segredos
serenidade traduzida
em palavras
adormecidas na alma

Menina que entendeu o tempo
fez chover até aparecer
o arco íris e o sol
da irreverência em seu peito





Adriane Lima





Arte by Marina Dieul

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A flor que a chuva levou



Adentro em sopros
a boca da tarde
sem culpas
piso descalça
a flor do poema

Matinal é a dor
da beleza
que mora no silêncio
da chuva que antecipa
o voo do passarinho

Seco as gotas
da vidraça
num infinito
desassossego

O cinza do dia é apelo
para a solidão escarlate
que inunda meus poros

Sei que estou viva
só preciso viver
o avesso de minha essência







Adriane Lima





Arte by Jindra Noewi


sábado, 21 de janeiro de 2017

As dores sabem gritar



Deitei em sua ternura
e um mar se revelou para mim
sopros suaves, gestos silenciosos

atravessamos momentos
de melancolia
sujamos as mãos
em terras estrangeiras

náufragos
cada um se salvou
ao agarrar o solo firme

senti natural se perder
sem precisar explicar
ou sofrer

Deitei em sua ternura
e fomos pulverizados
por mentiras torpes

bastava continuar
se movendo
em direções opostas

e foi o que fiz

cravei os dentes
na borda do copo
ao beber gim
li alguns manuais de
boas maneiras

gritei seu nome
até esquecer a pronúncia
sob uma chuva gelada
numa rua escura

estou de volta
dentro de minha ternura
começando outro caminho
como sobrevivente







Adriane Lima












Arte by Teri Shuster











quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Na crisálida de palavras



Entre meus dias monossilábicos
aparece você
dona de meus acordes
e risos dissonantes

ali um silêncio de nuvem
compõe a paisagem
quando olho para o relógio
e sei que o tempo
é curto para nossos assuntos
a seifar urgências
no calendário dos sonhos

sou toda palavra
a folhear histórias
que estavam guardadas em mim
em você e em todas as ruas do bairro

somos enfim barulho de trem manso
saindo da plataforma
e seguindo os percursos e percalços
da vida que grita por nós









Adriane Lima










Arte by Christian Chapman

Vertigens do tempo



Sinto na alma
a falta de sua carne
a mesma que adentrou a asa
mordeu o poema

e cuspiu letras
sob meu corpo queimado de sol

adestro cada silêncio
murmuro algumas canções
antes de dormir
e sonho

com seus olhos miúdos
pela dor e cansaço
dos dias escuros





Adriane Lima





Arte by Peter Seminck

Poema existencial



E eu ali inerte
a olhar a parede que descasca
o mato de cresce absurdamente
as telhas que mofam com as chuvas
o armário cheio de roupas que não servem

e eu ali inerte
a olhar as teias de aranha pelos cantos
as cartas de amor amareladas
as fotos até então guardadas

e eu ali inerte
a olhar as rachaduras sob a escada
a champanhe que aguarda o melhor momento
o espelho que compõe tantos silêncios

e eu ali inerte
tomada por pensamentos inéditos
e desejos de ver o mar






















Adriane Lima










Arte by Barney Corteau




O pendular de átomos



A tempestade
me traz uma lágrima
depois outra e
uma infinidade delas

a dor de sentir dor
e não poder gritar
remoer âmago
atiçar os poros
e se abraçar

ali, em plena
solidão de dor

dor de ser sentida
mais que minha
essa que caminha
pelas pálpebras
desce a coluna
e meu lado humano
se esvazia

dor de muitas almas
em um só corpo
dor indissolúvel
que afere à morte

dor
de ser sozinha
nesse braço de mundo










Adriane Lima










Arte by Christian Shloe
















Um lugar para se chegar



A madrugada
não mais me afaga
não me veste
com suas cores de breu
e brilho de estrelas

a madrugada
não é fria nem quente
pura mornidão
onde a ausência
tange meu corpo

a madrugada
me faz aclamar
por um lugar de chegada
uma réstia de luz
uma voz acordada

só assim sinto
que estou viva




Adriane Lima






Arte by Tomasz Alen Kopera

Beber os silêncios



Os silêncios de pedra
soterram aqueles que amo
acabe-me na fragilidade de vidro
a intempérie desmedida
em cacos
rumino tudo, lentamente






Adriane Lima





Arte by Ivana Besevic

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Palavras engaioladas



Havia derramado o silêncio
entre letras que pensei calar
escolhido o peito como aliado
feito produto manufaturado
que se pode modelar

em comum acordo com a mente
fui apenas displicente em nele confiar

ninguém cala o que sente
se as palavras não falam
os olhos não mentem

e nisso nunca fui boa
ao me disfarçar
mesmo com a vida agitada
entre insones madrugadas

novas palavras nuas
alvas e límpidas
preciso fazer voar




Adriane Lima






Arte by Ana Hadin Maulle

O claustro da alma



Nasci em suavidades
cresci sendo sol
pelas verdades do caminho

vestida de mar
como as marés
me alternava
entre altos e baixos

no corpo vontades
na alma intensidade
onde nos pés pesavam
a liberdade

lúcida em minhas loucuras
romântica em meus amores
inquieta em meus sonhos
exagerada em minhas dores

fui silêncio na maioria dos dias
havia sido a vidraça preferida
dos olhos que me cercavam













Adriane Lima













Arte by Ivana Besevic


Prosa para pessoas sensíveis VII





Verdade para essa gente, que acredita que a poesia
já nasceu para ser contemporânea,
sem artigos indefinidos, sem aquela lindeza de parnasianismo, 

achando que o bom é não rimar para ter lirismo e 
mesmo assim, ser chique desde os tempos de Camões.
Poesia não precisa de igualdade, de você achar que 
o que escrevo é verdade,
assim como o que você escreve e acha o máximo, 
colocar suas palavras em ácidos e provocar dizendo 
que agora o que está em voga 
são desconstruções.





Adriane Lima



Arte by Wendy NG

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Agonia moderna



Não é preciso singrar
o verbo
nem acreditar que a rima
é pobre
não é preciso ter um
pseudônimo nos concursos
atuais

muito menos achar que poesia
é isso...
não precisa escrevê-la no corpo
nem editá-la em ônibus ou trens

caso não tenha pago para entrar em nenhuma antologia
calma minha filha
você não é a pior poeta do mês

Nem sei dizer onde isso começou
ou se isso é mesmo só magia
falar que poeta é burguês

e dá status e alguma garantia
eu mesma posso afirmar
que isso já me salvou um dia

sentada em um sarau
de grandes nomes
olhei ao redor e quem havia ?

eu a louca do castelo
a outra era pura nostalgia
e nós salvamos
cada palavra que ali havia




Adriane Lima





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A magia entre os dedos



As mãos
a que tudo unem

expressam
modelam
verdades ou
artífices

as de minha avó
faziam tricô
as de minha mãe
abriam tarô

as minhas necessitam
todos os dias 

rasgar o infinito 
em poesias 











Adriane Lima






Arte by Agita Keeri  

Ofuscante dor



Eu sou meu próprio espelho
refletida entre o bem e o mal

o que dizer diante da existência?
reflexo onde nada se vê

o imaginário me transporta
através do que acredito
ser o real

Limite maior é o saber-se avesso
confessar-se incógnita diante de
um mundo doente, é hoje
tão normal
















Adrine Lima






















Arte by Catrin Weis Stein

sábado, 7 de janeiro de 2017

Branda cegueira



Ouvi suas palavras
com os olhos
inefável certeza
me vinha

Procurei o silêncio
das mãos e
assim
decifrar entrelinhas

vozes da vaidade
internas, incógnitas
indecifráveis

o silêncio me deixava cega
tantas palavras

expressadas igual a um vento






Adriane Lima




Arte by Rafal Olbinski
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