segunda-feira, 24 de julho de 2017

Adentro in pele



Acordada
encho meu corpo de tatuagens
ao sonhar
me vejo sempre nua

hieróglifos antigos
não decifrados





Adriane Lima







Arte by Tony Rubino 

A melancolia veste azul



Com as mãos cheias de estrelas
o gesto em conchas 
guardo o brilho, que só eu vejo
fixo o olhar em suas cicatrizes
salpicadas de luz e escuridão

entre o que meu olhar capta
há um imenso monte de areia
que imagino o Olimpo de um deus grego
cujo vento plastificou o rosto e os cabelos
paralisando a imagem em meu peito humano

no fundo eu sei
que é você, que enterro
a vida torna-se apenas silêncio
meu suspiro abafado é golpe de ar
um lastro de melancolia e riso

são tantas dores cristalizadas na alma
voos eufóricos que morrem no asfalto
tudo agora é incerto
e quando o pôr do sol
vem me visitar, nunca sei
se é apenas uma cena de filme de amor




Adriane Lima



Arte by Wayne Pruse 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Em defesa própria



Um dia idealizei teu corpo
animal que pensei voraz
e era extinto

real em solidão inaudita
suas palavras sórdidas
viraram feridas

Quem é você hoje?
visível repetição de gestos
herdeiro de dores
vestígios de olhares
que se fazem novos

mobílias presas,
em suas ilhas
músicas dedicadas
em meio à leituras,
que inventavas
em plena insônia

eu rio bem alto
das evidências
os buracos no peito
ressoam avessos
a toda engrenagem

e minha melhor escolha, 
foi a de colocar um cadáver
em seu lugar







Adriane Lima













Art by Alisson Hill

terça-feira, 11 de julho de 2017

Águas e memórias




Quando o amor chegar
estarei longe
e meus olhos estarão no mar
úmidos, ondulantes,
recuando nas areias
do pensamento

o amor só entende
a mágica linguagem
da coragem
ruínas, ossos, voragens

e eu
de desfechos

quando o amor chegar
já não me fará surpresas
seus gestos não serão puros
seus braços apagarão estrelas
desviadas do olhar

as palavras-peles
estratégias que não sei
me esquivar

sobre as águas, memórias
flutuantes, o ir e vir
e o ficar, condensadas
em tempo artificial

quando o amor chegar
estarei morta
ele será a centelha do universo
e eu finalmente, 

livre da espera de amar










Adriane Lima




Art by Galya Bukova

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Inocentes ou culpados



Chegará um tempo
que tudo o que vivemos
palavras que dissemos
deverão ser esquecidas
elas não serão mais nada
além de sonhos e desatinos
numa tentativa indisfarçável
de reter o que não mais abrirá caminhos

não diminuirá distâncias,nem
parcas e velhas lembranças
ou sonhos brotados entre meras ilusões

chegará um ponto
que nada mais fará sentido
além da máscara colada a pele
entalhada no brilho do medo
ou da decepção

um dia sentaremos na sarjeta
olharemos estrelas mortas
brindando o que sabíamos
ser só desejo

abrindo os abismos da alma
com a suavidade da voz
do grito contido
pela palavra que nunca foi dita

e que nunca saberemos onde foi parar
















Adriane Lima







Art by Aykut 
Aydogdu

A brevidade das verdades



Existe o espaço contemplativo
que desaprendi a deter
onde flores vistosas
perdem a cor, secam
em um tempo feito para morrer

Não poderia ser diferente
a visão dos dias idos
deixam apenas resistência
a minha interna vã filosofia

Tantas coisas simples morrem
em mim, e não há nada que
se possa fazer

areia em meus olhos
pesar em meu peito sempre desprotegido

Sussurro uma canção que gosto
para esvaziar o pensamento
algum vazio atinge os ossos
por essa eterna mania
de viver perdoando os fracos








Adriane Lima








Art by 
Aykut-Aydogdu

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Fria constatação



Depois daquele amor
que um dia
só me deixou feridas


hoje sou livro raro
sou a página que nunca
será lida






Adriane Lima






Art by Escha van en Bogerd

O risco das palavras



Nas frestas das manhãs
colho os dias sem sentido
labirinto esse, que sigo
para encontrar saídas
vivendo mortes diárias
uma vida sedentária
de se estar sempre perdida

estrangeira de meu útero
não sou a de outrora
aqui dentro ou fora
a imagem no espelho
me devolve todo dia
o que internamente já sabia

tempo de fragilidades
riscos na pele, suturas
alma enternecida
sem roteiros previsíveis
sem poder saciar a fome
das verdades que gritaria

é um tempo, dentro do tempo
um dia depois de outro
em uma manhã depois da outra

e a rosa de meus dias
sucumbe em poesias 









Adriane Lima




Art by A
ykut Aydogdu

Das inúmeras razões



Nunca me salvo de mim mesma
aprendi a morrer todos os dias
afogada, decapitada, pisoteada

morro com as vísceras arrancadas
sob o olhar sádico dos que me cercam
sou a única que habita minha solidão

permito degolar-me para o silêncio
ser minha eterna aliada
diante dos lobos e homens lobotomizados

brindo com eles o mais puro vinho dos deuses
em grandes goles desse rito diário
que é ver a morte aconchegar-me

nos braços amantes e amigos
de quem já matei bem antes
em cada manhã distante






















Adriane Lima









Art by Juan Medina

Desmedidas



Tudo cabe em um poema
os olhos que nada enxergam
as mãos que nada seguram
os pés paralisados
as dores inexistentes
tudo cabe em um corpo
que nada sabe
que nada sente
então para a poesia resta a alma
essa que roubam
E nunca devolvem 



Adriane Lima










Art by Angel Ynanov

Sobre a pele da alma



O dia se abre em asas
forma de um livro
que leio
pela noite que vagueio
da insônia em companhia
o dia chega e se abre
pétala por pétala
vida que me veste
em casulo solidão
voar é assonância da alma
que a poesia me deu
e sinto que do eu
só resta o que doeu

















Adriane Lima



Arte by Rob Hefferan

terça-feira, 9 de maio de 2017

Poema alado



Encontrei uma palavra
embaixo do meu
travesseiro
pensei ser uma estrela
vinda do céu de minhas
lembranças

Palavras guardadas
onde não se imagina
me enchem de
esperanças










Adriane Lima










Arte by Sophia Bonatti

Tempo contraditório



Precisei ver a vida de perto
colher frutos do mistério
romper dores escondidas na alma
escalar degraus de minhas angústias
gritar aos recônditos de meus silêncios
era hora de correr os riscos
e adormecer no ventre do Amor próprio



















Adriane Lima













Art by Santiago Carbonell

sábado, 29 de abril de 2017

Notícias do tempo



Sinto que a vida passou
e eu não estava presente
Sinto minha menina
orvalhar no tempo
que meus olhos não registrou






Adriane Lima










Art by Rebecca Tecla

O querer



Meu peito
tem um grave defeito
abre, cuida, guarda,
sofre e se consome
quando ouve a palavra Amor
















Adriane Lima










Art by Galya Bukova

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Dores outonais


Quero sentir que estou viva
preciso do caos
dos risos largos
dos abraços em pele
seguido dos beijos
preciso saber do desejo
do olhar intenso
de tantas coisas que deveriam importar
do cheiro do mar
do vento a soprar
das esquinas dos bares
das ruas floridas
do gosto de algumas comidas
do sono tardio em noites de frio
das palavras verdadeiras
das dores reais
quero sentir que estou viva
arrancar esses sentimentos extintos
dessa vida interminável
revestida de melancolia






Adriane Lima







Art by Steve Hedenrson

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O que há no peito humano



Não há nada além
de tudo que já perdemos
tirar leite de pedra
sempre foi mais ameno

Amor vem da força do verbo
que ainda semente
nos salva da valiosa realidade
dos traumas, dos medos, dos inimigos

Tudo cabe no estreito vão de nossas escolhas
o sonho da ficção naufraga a dor
lembro de meu voo em vórtices
os passos perdidos pela casa
os degraus de minha perturbação

Poderia ter inventado a liberdade
não a clausura do silêncio impossível
o abismo amargo ao tragar fumaça
entre as coisas humanas
que me consomem

Onde me distraio
trancando portas e janelas
e em minha fragilidade
tudo se entrelaça

Salvo meu gato escaldado
da água em ebulição






Adriane Lima









Arte by Van Holle

As estações do tempo



A flor do desejo
em tuas mãos jardineiras
tirou-me pétalas a pétalas

na trilha do peito
guardei impermanências
novas sementes
espalhei em solidão

não havia paz em canto algum
mãos feito heras internas
agarravam-se ao vento
sem esperança de primaveras



















Adriane Lima







Arte by Alisson Hill



Marcas me doem


Tento blindar
a alma das dores
elas atravessam
através de rumores

Sussurros chegam
em ventos inesperados

bocas famintas
que não sei alimentar

ruídos intensos
sabem como estilhaçar
meu coração






Adriane Lima













Arte by Iris Scott

sábado, 15 de abril de 2017

Ora direis, criamos flores



Eu sei quando te amo
quando penso em você
e sorrio com os olhos perdidos

quando levanto e vou até
o meu jardim com uma xícara de café
nas mãos, lembrando sua indicação
de que era preciso
tirar a água antes que fervesse

quando ando pela casa pensando
o que fazer ao entardecer e tendo
a certeza da solidão como companhia

quando faço a grande alquimia entre
mil temperos e cheiros e danço na cozinha
como fazíamos aos domingos

quando minhas dores cinzas
transformam-se em tons alegres
e relembro de tantas coisas que aprendi

quando com minhas sombras me confundo
e busco teu corpo para abraçar

eu sei quando te amo
quando todas as metáforas fazem sentido
e sei que tudo na vida,
não valem os poemas que li

os medos dos quais fugi
quando não é mais segredo
as letras, as histórias, as bebedeiras
os lugares, as situações inenarráveis

que guardarei na memória





Adriane Lima






Arte by Geraldine Muller







sexta-feira, 14 de abril de 2017

Onde deixei minha via crucis




Estou sentada à beira da porta
nesse dia silencioso.
A poeira tomou conta dos batentes
e tudo que penso é no vazio da queda
das formigas que por lá passeiam.
Até os pássaros resolveram não cantar.
Começo então, a contar tudo,
que está ao meu redor: ladrinhos,
árvores, galhos caídos ao chão.
Percebo então, os paradoxos desse mundo cão.
A lagartixa negra camuflada na parede branca,
a grama que cresce e mata as flores,
o animal que urina onde se alimenta,
o céu azul que é peso e me dói nos ombros.
E essas horas tristes, que nunca passam,
sempre um outro tempo de decepções.
Cristalizo-me por saber que de nada adiantaria
inverter o passo, correr para trás o tempo.
A dor de não pertencer a nada, só não é maior
que todos os sonhos roubados.
É dia santo bem sei, e toda verdade que há em mim
desfez os laços das mentiras que há em ti .
Abri minha caixa de mágoas, joguei uma a uma
na água escorrida da sarjeta e fui buscar minha alegria
exilada em alguma esquina, onde a vida já me sorriu
e eu distraída não prestei atenção.




Adriane Lima



















Arte by Jan Saudek

Adocicados enganos



Eu sou aquela
que faz bonecos de neve
em pleno trópico quente

luta contra moinhos de vento
em pleno deserto da mente
escala montanhas de sonhos
deitada no sofá da sala

que retira a lama
tendo os pés em nuvens
a que doa o punho à navalha
sabendo que não corta nem água

que deseja a alma suja
retirando poesia dos dias
a que possuí castelos
e dorme na alcova

oposta a tudo
libertária de pássaros
em pleno voo
eu sou aquela
assustadoramente só







Adriane Lima









Arte by Galya Bukova

De onde vim



Vivi para inventar
um tempo que nunca existiu
um amor que nunca ficou
uma dor que nunca passou

um caos que perpetuei
uma morte que não engoli
uma coragem que nunca tive

a palavra, o gesto a poesia
o assombro ao criar dores
cortando-se diariamente
para beber o próprio sangue

pedir perdão ao átimo
onde a realidade fugiu
onde a corda rompeu
onde o sonho acabou

e chegar ao outro lado
salve guardada de meus pecados
por ter matado aos poucos
minha plena vontade de vida







Adriane Lima





Arte by Kari Lise Alexander

Tempo de doer



No começo de mim
era rio, pastos alagadiços
terra de chão batido
muros baixos, caminhos livres

Novo tempo de mim
varandas altas, apartamentos
ruas desconhecidas
onde aprendi decorar nomes

Esse tempo de mim
de perdas, descaminhos
sonho de um lar, caos sem casa
pedaços esmagados em solidão,

feita de mortes por dentro
onde hoje, os rios são rostos
que passam e se modificam

sem paradas, seguem fluxos
entre os dias que no leito
eu mesma -teimo em não mais adormecer










Adriane Lima







Arte by F
orooghi Forooghi


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Olhos narcísicos



Diante de um encanto
sou lírica em demasia
vejo além do que meu olhos alcançam
em métricas fotografias
sou enquadramento, a lente
desse seu olhar de poesia.








Adriane Lima











Arte by Charmanie Olivia

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quisera saber



O tempo, mora em uma casa que ele pouco frequenta.
Sabe seus costumes, suas lendas, sabe das saudades apenas um terço.
O tempo devora em mim o que decifro.
Mesmo que doa em nós, as diversas casas que não habitamos ...

















Adriane Lima






Arte by Marina Diel 

Quedas míopes





Dos abismos que há em mim
não sei porque é assim
mágoas não se dissolvem
em lágrimas livres
presas em abraços







Adriane Lima





Arte by Alessander Levausser

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Palavras de proteção



Construo palavras artrópodes
proteção que não caberiam
em nenhum corpo

palavras em exoesqueleto
armadas, duras, revestidas em segredos
palavras inúteis
tão híbridas que não servirão
para nada

as palavras sendo signos
vindas de um monólogo divino
entre Eu e meu próprio umbigo

palavras artrópodes
me desamparam ao menor
sinal de perigo

palavras cheias de dedos
silenciam a pulsação do universo

em meu poema
não construo palavras artrópodes
sílabas frágeis, esvoaçantes

palavras me escapam e sobrevivem
da minha falta de sorte




Adriane Lima





Arte by Prashant Nayak

Poema reflexivo



Olho sua fotografia
finjo que não te reconheço
talvez me livre da culpa


queria ser a entrega
e sou a própria desculpa

de uma dor maior
de não nos espelharmos mais






Adriane Lima










Arte by Frans Kronjé

Os lugares de mim



Tirei o domingo a tarde
para ler meus poemas antigos

ver quem eu era tempos atrás
como eram meus amigos

vasculhei entrelinhas
parei para relembrar
revisitei minhas dores

voltei em busca de mim
e me vi diferente

meus erros, medos e amores
não tem hoje meu espanto

quero agarrar a realidade
e me conhecer de novo








Adriane Lima







Arte by Prashant Naya

Onde existe o espaço



Chegado o equinócio do outono
se fosse eu mapa
e você bússola
sei que estaríamos perdidos














Adriane Lima










Arte by Gerard Schlosser



Poema sobre a mesa



Viver para pagar contas
pagar o pato
pagar o preço

morrer para apagar pegadas
apagar memórias
apagar segredos

e ser só
paz






Adriane Lima










Arte by Vitor Lolli

sexta-feira, 24 de março de 2017

Eterno



Algumas madrugadas
nunca acabam
perfumes de histórias
permanecerão 
entre os lençóis da memória








Adriane Lima








Arte by Ágata Endo

Filosofia Poética XIII



Que todas as manhãs dance em nós a estrela bailarina,
entre acordes de sorrisos, como se fosse dia de festa.
Para que possamos apreciar a arte de estarmos vivos,
juntando desafetos, mágoas, e entre um passo e outro
transformar tudo em rodopios de levezas!!!













Adriane Lima






Arte by Cristina Fornarelli


.

Filosofia Poética XI



Levezas, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro, claro que, incertezas estarão presentes entre os mais sólidos desejos.
Só não se deixe levar por uma triste frase que diz assim : -"durante sua jornada você conhecerá muitas máscaras e poucos rostos.
" Reformule -a e acredite em sua intuição.
Só se mostra de verdade aqueles que confiam, aqueles dispostos a partilhar dessa imensa viagem chamada vida, os demais, apenas aproveitarão as paisagens...




Adriane Lima


















Arte by Galya Bukova

quinta-feira, 23 de março de 2017

Asas de mim



Nasci pássaro
é na dobra de asas
que guardo afetos
eles nascem do que retenho
e não mostro para ninguém









Adriane Lima








Arte by Marina Diel 

Incômodos



Dona do sangue
e do abismo
onde encontra forças
para segurar nas mãos
todos os pedaços fatigados
de suas dores?

Ensurdeceste bem sei
e de pedra virou seu peito
cada palavra em poesia
oferece a leveza da crença
no dia a dia





Adriane Lima







Arte by Vitto Lolli

Acontecências



Sei que para você
não passo de um corpo
branco, liso
marmóreo

Esse corpo mármore
em que suas mãos moldava
cada entalhe e sentia
que eu estremecia a carne

porém,a alma não 
essa nem estava ali





Adriane Lima










Arte by Titti Garelli

terça-feira, 21 de março de 2017

A epiderme cálida



Lateja in memorian o que sinto
a carne de outrora
não satisfaz mais o desejo
o mundo se acostuma
ao que é do homem

Volúpia consumida entre dedos
escorre por todo corpo
indiferente a dor alheia
que sabíamos ser o escape
ou solução ao segredo

Se pudesse encontrar uma palavra
que descrevesse tudo que penso
dessa vaziez de sentimentos

Cárneos, olhos carmim
o cheiro do desconhecido
nos corpos nus amanhecidos
sonhamos ser o que não somos

A carne saída do cotidiano espelho
carne da tua carne
eu não a adentro, ela adentra em mim

Penumbra difusa que atravessamos
projetada no vil entalhe 
que já não importa tanto
o que tínhamos em mãos 
era tão mais significativo

Vocifero o que não pode ser domesticado
a dor, ao que verdadeiramente sentíamos
era gozo de alma, na leveza que aos poucos
habitavam seus olhos ternos 
e foi morte aos atos provisórios de outros

hoje mundos desabam onde
a carne respira mesmo distante
entre ensejos falaciosos e indiferentes




Adriane Lima



Arte by Cristhina Fornarelli


sábado, 18 de março de 2017

Prosa para pessoas sensíveis VIII



Sentada entre nuvens da tarde, o silêncio veio perguntar:
Sabia que o colibri sabe cantar? 

Sujeito sem tempo não pode escutar. O meu espanto imediato, falou mais que o barulho de um pássaro a trocar seu compromisso com o mundo, nele detém o poder em cada voo solitário ou não (o canto), enquanto eu percebo suavidade na rapidez do gesto o voo, tudo que muitos olhares nem sempre alcançam.
Eu queria fazer parte disso, enxergar diariamente o sol nascente.
Me basta ouvir o canto do colibri, ver o pulsar do dia, colher as digitais de um anjo, sentir o vento elevar as folhas e você ainda quer que eu entenda o que vi e ouvi nesse dia...?
De certo tudo deve estar sendo o que é !!! 
Sim: CANTA, eu respondi.



















Adriane Lima










Arte by Nik Helbig

sexta-feira, 17 de março de 2017

Essência divina



O que pensar
desse tempo, dessa vida
uns com fome de ser
outros com sede de existir

empresto meu olhar
a tudo que vejo
doar a alma é pouco
diante do que desejo

meu mundo não cabe
nos braços do pensamento
bate asas quer voar
cria um silêncio crepuscular

nesse mar de divindades
eu delicadamente a descansar
já que morrer é tarde








Adriane Lima








Arte by Galya Bukova

segunda-feira, 13 de março de 2017

Entre laços e luas



Olho hoje seu rosto
tão diferente de tempos atras
como se hoje
sua luz não existisse mais

como ter olhos para
teias tão frágeis
onde enveredava-me
tamanha admiração

esquecer o que não
nos convém, é dor
leve e silenciosa
cheia de urgências
em um amor de lentidão

ainda estamos de mãos dadas
de almas devoradas em algum lugar escuro

onde a lua chora nossas mágoas










Adriane Lima








Arte by Galia Bukova

Onde habitam as asas



As paredes de minha casa
cansaram de ouvir
falar de solidão

Descascaram-se
em lágrimas de
tintas enternecidas

Acordaram buscando sol
nos mofos das retinas
onde doía em silêncio
a desistência da vida

Entre noites escuras
abraçavam dores vazias
de pares e pés unidos

Nas paredes dessa casa
rachaduras de histórias
caladas entre curvas

Corpos que se transformaram
em fantasmas e vivem
a espera do tempo

Casa:- lugar onde habitava o sol
sem paredes 

e minhas aves de arribação



Adriane Lima







Arte by Galia Bukova

terça-feira, 7 de março de 2017

Para onde vai o que tem pressa



Se ela chora por amor
é frágil
se ela age com paixão
é impulsiva
se ela grita seus sentimentos
é histérica
se ela se mostra de verdade
é fantasiosa

qualquer coisa é motivo
para um sentimento levar a outro

Mulher
o que pode ter um ponto,
um desconto, um senso
um contra senso

Mulher
onde é teu paraíso
inferno se compõe
na mira eterna de olhos
que não sabem distinguir
tuas nuvens

Mulher
veias onde correm sentimentos
onde as razões não merecem
pesares pelo teu voar

Mulher
estrela maior
visitante das ruas
que se auto devora

Mulher
dona de todo e qualquer espaço
onde se mistura
a insustentável leveza do
que chamamos Amor






Adriane Lima







Arte by Paul Lovering

Onde dormem os sentidos



Não me venha com poemas
nem flores, nem palavras ansiadas
pela fragilidade do dia

não me venha falar de amor
o platonismo de Rimbaud
não me encherá o peito em suspiros

jamais a esperança sem movimento
na pele, na alma
sinto um mundo que arrepia
em cada silêncio que grita

não me venha com poemas
neste dia que me declaro fêmea


hoje,meu único desejo
é que sente-se aos pés
de meu coração e
com toda sinceridade
troque de lugar com a verdade

mesmo tarde, foi uma das
melhores coisas que fiz
mergulhar na vaziez dos dias
olhando meu reflexo na água
da mais pura fantasia
que é escrever poemas






Adriane Lima



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O solo ácido das lembranças



A cada manhã que nasce
procuro-me desesperadamente
desapareci lentamente

pedaços soltos no caminho
de tudo que fui e
sei perfeitamente
onde morri mil vezes

renasci teimosa
querendo num suspiro
tudo mudar
das pequenas coisas
ao mais interno mar

dores, pó, silêncio
contemplação, sonhos e
acima de tudo ilusões

plantei e colhi tão pouco
tudo em comum acordo
por sempre escolher
semear a paz em meio as guerras

busquei mãos no alto do abismo
o que sou em mim não há explicação
há um grito preso na garganta
de ter escoado minhas certezas

ingenuidade mergulhada em epifanias
do que há no peito entre as mágoas
que são de minha natureza













Adriane Lima













Arte by Alessandro Della Pietra 

Anáfora de mim



Caminho por esquinas
que não são mais minhas
fôlego roubado de antigas
inquietações que julgava
conhecer tão bem

dores novas em
velhas rotinas
bares, falsos abraços,
torpes amores, ilusões

A casa não é minha
já não habito um coração
aquele amor que foi vivido
escorrido ralo abaixo

sentimentos a perdoar
dentro de mim
aceitar o tempo a matar

queria dizer que é só cansaço
dizer coisas que logo passam
ter a certeza de verdade
diante desses dias tristes

morte anunciada nesse silêncio
enquanto sei que a quarteirões daqui
dançam carnaval em um botequim

é dor de futuro
que recai sobre mim










Adriane Lima
















Arte by Michael Creese 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Imagens do tempo



Mantenho o milagre
como se um anjo
coroado por pétalas
recebesse as lufadas
da alma do amor

Como se a entrega
fosse um lastro
céu e terra girando unos
reinventando o encontro

Deuses feridos molham
o altar das palavras
com o sêmen da vida
in vino veritas
onde nada existe

Há um peito calado
que a tudo resiste
emoção de não poder
ser barco e saber nadar










Adriane Lima













Arte by Jeremy Mann

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O medo da luz



Faminta era tua boca
de lobo enjaulado
salivava desejo
em busca de carne

Entre frestas do dia
pousava uma borboleta
em tuas dores conhecidas

Dividindo assim
o caos humano de cada um
a réstia do gozo imantado
de um incômodo passado
 
As palavras eram elos
colorífica aceitação
por estarem perdidos
num mundo habitado
por cães adestrados

Era a certeza de não pertencer
a esse mundo, além da poesia
de pertencerem 
a natureza de todas as coisas




Adriane Lima









Arte by Michael Creese

O que pulsa além dos olhos




Meu peito mistura amores
nele tudo cabe
amores que amei, os que julguei amar
e então acreditei, tudo abarcar

remanso mar transparente
que com o corpo abracei
o que a mente aceitou
sentimentalizar

destino dado a solidão
amor nascido de palavras
associação de verbos intermináveis
imperativa forma de se doar

meu amor crescia nas folhagens
nas encostas e carpadas
na aspereza e no medo

na neblina onde as cegas caminhava
desejando o reflexo
onde a carne já faltava





Adriane Lima






Arte by Loui Jover
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